domingo, 16 de agosto de 2009

O Trem da Terra dos Marechais - crônica de Tchello d'Barros

O Trem da Terra dos Marechais


“A única maneira de não perder o trem é perder o que vem antes dele.”
G. K. Chesterton


Em pleno 2008, já com saudades da Oktoberfest, estou novamente dentro de um alfarrábio. Este é o nome com que os alagoanos chamam os tradicionais sebos, repletos de livros usados, nas ruas próximas à CBTU, a estação de trens de Maceió. Nas mãos, um exemplar de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, o autor alagoano nascido em Quebrangulo. Folheando o livro para ver se ali encontro as gravuras do cearense Aldemir Martins, que teriam sido impressas na edição original, acabo por lembrar que há pouco encontrava-me em Blumenau, por ocasião do Encontro Internacional de Literatura Lusófona. O evento, organizado pelo incansável Luiz Eduardo Caminha, foi uma promoção do portal literário Cá Estamos Nós, do escritor português Carlos Leite Ribeiro, que há mais de uma década mantém uma bela amizade com os autores da loura cidade do Vale Europeu.

Entre outras peripécias culturais, minha presença no evento deveu-se principalmente pela apresentação de minha exposição de Poesia Visual intitulada “Convergências”, que nessa edição ocorreu no Viena Park Hotel, local da realização do referido evento. Na ocasião, acompanhado pelo escritor pernambucano Luiz Alberto Machado, tratamos de visitar o alfarrábio, digo, sebo, da cidade, o Book Center, onde o Nilto nos recebeu com a simpatia de sempre e lá encontramos livros de vários membros da Sociedade Escritores de Blumenau, incluindo as coletâneas que editei para essa instituição literária, Um Rio de Letras e Espelhos da Língua. Numa boa caminhada pela Rua XV de Novembro, a rua da linguiça, meu colega ficou impressionado com a arquitetura no estilo Enxaimel, com a beleza das blumenauenses, of course, e até mesmo com a estrutura da Ponte de Ferro, onde antigamente passava o trem de Blumenau. Após degustarmos um chope no Biergartem e visitarmos obras de minha querida e saudosa amiga Elke Hering, na Fundação Cultural, participamos com outros escritores de um sarau poético, o Valentinestag, na biblioteca Fritz Müller, um de meus locais afetivos na cidade. E dias depois, voltando ali, deparo-me com uma bela exposição iconográfica sobre a vida e obra do autor de Vidas Secas. Gostei muito, embora eu duvide que, numa equivalência cultural, a biblioteca de Maceió realize uma exposição sobre a vida e obra do catarinense Cruz e Souza.

Uma semana mais tarde, aí estamos em Maceió, circulando entre os alfarrábios, perguntando sobre obras de autores alagoanos. E assim chegam-me às mãos o clássico Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, o poeta e artista plástico nascido na mesma União dos Palmares do quilombola Zumbi. Inevitável lembrar que o autor do poema Nega Fulô era sempre recomendado pelo poeta Lindolf Bell em nossas conversas sobre literatura brasileira. Na calçada dos surpreendentes quiosques-sebos, à sombra da Assembléia Legislativa, encontro um exemplar do emblemático Ninho de Cobras, romance do maceioense Lêdo Ivo, em prosa poética, que reputo como um dos mais interessantes livros escritos em nosso idioma. Não adquiri o exemplar, pois já possuo um volume, devidamente autografado pelo autor, um livro lindo, lido, relido e trelido. O vendedor não sabia que Lêdo continua vivo, com seus lúcidos oitenta e cinco anos, radicado no Rio de Janeiro. E após recusar algumas publicações de poetastros contemporâneos, tive a agradável surpresa de me deparar com um exemplar de instigantes poemas galantes de Marcos de Farias Costa, que é também proprietário de um alfarrábio, o seletivo Dialética.

Munido com as novas aquisições literárias, dirijo-me finalmente para a CBTU, a fim de garantir meu bilhete de passagem para uma viagem de trem para a cidade de Rio Largo. Antes de chegar, passo pelos intermináveis muros laterais da própria estação e ei-los completamente tomados de poemas pintados, projeto de décadas atrás, sendo que a maioria dos textos já está ilegível pela ação do tempo e das intempéries. Mas ainda é possível ler o curioso poemeto de uma certa Rosiane Rodrigues, que nos conta que “a teia do anjo/ à deriva do tempo/enrosca a nave/do desejo”. Defronte à estação, degusto um caldo de cana gelado e depois de uma última visada nas águas cor de berilo da Praia da Avenida, adentro a estação, passando pelas inusitadas esculturas formadas com pedaços de trilhos e dormentes, representando elementos do folclore alagoano, como as danças de Guerreiro e Pastoril.

Já de bilhete em mãos, circulo pelo corredor, tomado pelos passageiros que serão levados às cidades-dormitório da região metropolitana de Maceió, compondo um roteiro de 32 km, culminando em Lourenço de Albuquerque. Após passar pelas catracas, chego às plataformas de embarque, com suas dezenas de colunas quadradas, onde numa das edições da tradicional festa rave Substation, essas colunas receberam plotagens de dois metros de altura, com meus poemas da série Ideogramas, do livro Olho Nu, na coleção Poesia de Santa Catarina, leia-se Péricles Prade e Fábio Brüggemann. Os poemas neoconcretistas ficaram por cerca de um mês nessas colunas, e era interessante ver os milhares de estudantes que circulam diariamente na estação, anotando os poemas em seus cadernos, fotografando com celulares e até mesmo tentando decorá-los. Mas naquele momento não havia poema nenhum, a não ser os dos livros que eu carregava. Como que para me acordar do devaneio, o maquinista apitou o sinal para embarcarmos.

Os vagões coloridos externamente com motivos do Nordeste, da locomotiva Nordestina, entram em movimento, e assim logo passamos por um dos trens que mais chamam a atenção na estação, a Brasileirinha, toda pintada com berrantes tonalidades de verde e amarelo. E mais adiante passamos pela Estrela Radiosa, uma locomotiva toda pintada em vermelho, branco e azul, as cores heráldicas da bandeira alagoana. Vou me abancando no vagão, quase cheio, com os bancos ocupados principalmente por moradores dos bairros da cidade por onde os trilhos passam. Um senhor, sentado à minha frente, reclama com o amigo sobre o juiz ter roubado no clássico entre o CRB e o CSA, principais times de futebol desta que é a terra da maior jogadora de futebol do mundo, a Marta. Dois rapazes de óculos, mais ao lado, creio que fossem professores, discutiam qualquer coisa sobre a proclamação da república, pois a mesma foi proclamada pelo alagoano Marechal Deodoro e consolidada pelo também alagoano Marechal Floriano. Voyeur auditivo, tentei ouvir a conversa de duas senhoras de aspecto bastante religioso, com bíblias em punho, cabelo em coque e saias muito compridas. Sei apenas que comentavam algo sobre o filho do Collor candidatar-se a prefeito na cidade de Rio Largo, ou algo assim. No banco de trás, duas morenas vistosas e sorridentes tricotavam trivialidades, era um papo sobre culotes, estrias e celulites, tema universal da natureza feminina.

De repente o trem começa a apitar diversas vezes seguidas, e uns garotos no vagão correm em algazarra para as janelas, atiçando minha curiosidade. É o aviso de que, ainda em Maceió, estamos chegando à Feira do Passarinho, que por acaso é tema de um de meus cordéis, e no caso, sob os avisos do trem, os feirantes que tem suas mercadorias nos nichos entre os trilhos tiram apressados os produtos, numa correria, para que o trem possa passar. A garotada fazia a maior gozação com os feirantes, que xingavam de volta e assim que o trem passa, em questão de segundos lá estavam sobre os trilhos os produtos novamente, relógios usados, celulares de procedência duvidosa, ferramentas variadas, CDs piratas e artigos nessa linha. Nessa linha do trem. Em seguida, após passar por outros bairros como o Bom Parto, Bebedouro e Sururu de Capote, logo chegamos à estação de Fernão Velho, região bonita, onde por um bom trecho do percurso, a locomotiva margeia a imensa lagoa Mundaú. E assim, segue seu destino passando pelas estações de ABC, Rio Novo, Satuba, Utinga, Rio Largo e finalmente Lourenço de Albuquerque. O itinerário foi pontuado por diversas vilas, fazendas, paisagens verdejantes e as inevitáveis plantações de cana-de-açúcar. As usinas e antigos engenhos são parte do cenário, onde o destaque fica também por conta das próprias estações ferroviárias, muito antigas, já que se trata de uma via férrea centenária.

A viagem transcorreu com tranqüilidade, e os passageiros de meu vagão iam sendo aos poucos trocados, como que substituídos, desciam alguns, entravam outros. Chamou minha atenção o fato de haver guardas armados no trem. Um deles me contou que é uma medida de segurança para os usuários, e me apontou vilas onde vivem famosos pistoleiros da região e mesmo uma fazenda que havia sido tomada certa vez pelo bando de Lampião, que aterrorizou muito por essas bandas. Embora o moço trabalhasse há pouco tempo na função, disse não lembrar de notícias sobre acidentes ou descarrilhamentos. Isso me lembrou uma história de trens que me foi contada pelo poeta Jairo Martins, de Blumenau, quando de suas andanças pelos Andes. Num certo trecho, no Peru, houve um acidente no trem em que ele estava, ficando a locomotiva dependurada em uma ponte. Fiquei imaginando a cena ilustrada pelo fenomenal artista Telomar Florêncio, outro confesso apaixonado por trens. Só que numa pintura do Telomar, esse trem já levantaria vôo, e lá de cima veríamos os enigmáticos desenhos do deserto de Nazca ou as ilhas flutuantes de Los Uros, no lago Titicaca, já que nada é impossível quando se trata da pintura desse artista.

Estava viajando nesses delírios, quando me avisam que chegamos a meu destino, Rio Largo. No entanto essa seria a penúltima estação, pois a derradeira seria a de Lourenço de Albuquerque, cidade colada na outra. Assim, resolvi ir até a estação final. Apesar do roteiro relativamente curto, a pouca velocidade do trem fez com que a viagem durasse cerca de uma hora e meia. Apenas desci e caminhei um pouco pelas ruas centrais da cidadela, provando uma água-de-coco gelada. Em pouco tempo, já estava no perímetro de Rio Largo. Trata-se de uma cidade antiga, que parou de se desenvolver e apresenta muitas ruínas dos tempos áureos dos grandes engenhos. O rio Mundaú, corta a cidade e daí a nominação. Flanar pela animada feira de rua, pelas ruínas e igrejas da cidade foi a atividade desse dia, já que não havia nenhum compromisso ali, apenas uma boa desculpa para uma viagem de trem. Num restaurante da rua central, provei uma tradicional carne-de-sol com macaxeira cozida, temperada com manteiga de garrafa. No acompanhamento, feijão-de-corda e queijo-coalho. Para beber optei por um suco de cajá.

Zanzando pela cidade, obrigação de viajores, peregrinos, vagabundos e curiosos como eu, tive oportunidade de conversar com vários cidadãos, sempre atenciosos e simpáticos, de um jeito que só os nordestinos sabem ser. Meu sotaque catarinense, estranhíssimo para os nordestinos do chamado Brasil profundo, fez com que, ao final de um bate-papo com um senhor numa praça, antes de me despedir, ele me perguntasse de que país eu era... Eu sabia que ali, teria sido uma das regiões onde os índios Caetés foram dizimados, por conta do episódio histórico do Bispo Sardinha, que teria sido canibalizado por eles, segundo alguns historiadores de índole questionável. Sabia também que os Batavos teriam tentado invadir a cidade no período de ocupação holandesa, comandada pelo alemão Maurício de Nassau. Então, minha curiosidade histórica era se o alagoano Calabar, traidor para uns, herói para outros – inclusive para este cronista – teria participado das batalhas ali na região. Ninguém soube responder isso, pois não há evidência escrita de sua passagem por ali, o que não impede que muitos o considerem o primeiro herói desse país. Mesmo assim, ele é muito mais valorizado, digamos assim, na Holanda que por aqui, mesmo caso de minha heroína preferida, a catarinense Anita Garibaldi, que na Itália tem até estátua.

Elucubrava essas divagações quando me dei conta de que era hora de me dirigir para a estação a fim de voltar para a capital alagoana. Já devidamente abancado no vagão, uma última visada nas casinhas de alvenaria, enfileiradas em suas cores alegres, me fizeram lembrar de umas fases do pintor Volpi, que retratou tão bem essas fachadas coloridas de casas do Nordeste. Compro um picolé de tapioca – sim, isso existe! – e reencontro o guarda do trem. O mesmo me convida para refazer o percurso durante o período das festas juninas, quando se realiza o projeto Trem do Forró, onde os vagões são decorados com bandeirinhas coloridas e os autênticos trios forrozeiros transformam os vagões em espaços de dança, folclore e muita festa. Tá anotado. No retorno, já contemplando o crepúsculo refletindo-se nas águas plácidas da Lagoa Mundaú, rememoro outra viagem de trem, menos tranquila, no percurso de Bruxelas para Amsterdã. Estava euzinho ali, vendo se na paisagem dos países baixos apareceria algum moinho, quando depois que estávamos já abaixo do nível do mar, entram alguns policiais no vagão, dão uma boa olhada nos passageiros e então, com um imenso cachorro preto, o grupo vem direto em mim e me convidam para acompanhá-los num vagonete para revista. Revistaram minha roupa e bagagem e fizeram o cachorrão me farejar e depois farejar minha bagagem, conferiram meus documentos, fizeram anotações, me entrevistaram sobre quem eu era, de onde vinha e para onde ia. Fizeram um questionário e tanto, só faltou perguntar se eu preferia rollmops ou caldinho de sururu. Ao final, desculparam-se e explicaram que esse é um procedimento padrão para coibir o tráfico de drogas na região, já que na Holanda há uma grande tolerância para o uso de várias drogas. Então perguntei porque vieram logo em mim, e um deles disse que é porque eu tinha um tipo latino e podia muito bem ser um colombiano traficando. Ao final me desejaram boa-viagem e que eu aproveitasse bem a capital dos batavos.

Antes de chegar na estação final em Maceió, releio algumas páginas de Vidas Secas, apesar do leve balanço do trem. Noto que aquele universo árido do personagem Fabiano é muito diferente da recém visitada Rio Largo e mais ainda da cosmopolita Maceió. E daí? Daí que assim como um dia, este ocasional escrevinhador, esteve dentro de trens, alfarrábios e bibliotecas, hoje este texto está dentro de uma tela de computador e um dia estará dentro de um livro. E mais adiante, quiçá, dentro de um sebo ou alfarrábio...




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O Trem da Serra do Mar - Crônica de Tchello d'Barros

O Trem da Serra do Mar


“As estações ferroviárias são a porta para o glorioso e o desconhecido. Através delas mergulhamos na aventura. Através delas, infelizmente, voltamos.”
E. M. Forster



O poeta Bashô viveu no Japão medieval do século XVII e seus biógrafos divergem um pouco sobre ele, mas parece consenso que exerceu várias atividades, tendo sido além de samurai, um professor erudito, e mais tarde um monge zen. Para além dessas questões, notabilizou-se por percorrer à pé longas distâncias pelo país, de aldeia em aldeia, onde divulgava seus haicais, uma forma de poema que na época era praticada apenas pela nobreza dos shogunatos. Assim, esse poeta andarilho tornou popular essa forma sucinta de poema, sendo que séculos depois se espalharia pelo mundo, tendo sido trazida para o Brasil, há quase um século pelo poeta Guilherme de Almeida. Hoje é praticada mesmo na germânica cidade catarinense de Blumenau, onde, apenas como referência, podemos citar poetas como Martinho Bruning, Edith Kormann, Nassau de Souza, Tchello, Terezinha Manczak, Isnelda Weise, Margit Didjurgeit, entre outros. Bem, o fato é que Bashô escreveu certa vez que eventualmente sentia um certo formigamento na sola do pé, prenúncio de uma necessidade interna de viajar, de andar pelo mundo, de descortinar horizontes.

Parece que essa é uma necessidade atemporal do ser humano, mesmo em nosso ocidente contemporâneo e digital, vez em quando não há quem não sinta sua bússula interna apontar a agulha para algum ponto do mapa. Mas nem sempre é preciso atravessar oceanos ou desabalar-se para países distantes ou destinos exóticos, para se ter uma boa experiência de viagem, pois muitas vezes lugares e experiências interessantes estão mais perto de nós do que imaginamos. E foi assim que, aí pela virada do milênio, decidi passar um fim-de-semana na bela Curitiba, para conferir um pouco das inovações ecológicas da cidade onde morei quando criança. Cidade também de haicaístas, como Alice Ruiz, Andréa Motta, Helena Kolodi, Jiddu Saldanha, Marilda Confortin e Paulo Leminski, o cachorro-louco. Mas não bastava andar pelos parques e praças da capital paranaense, ou curtir a intensa programação cultural da cidade. O objetivo era também fazer um trajeto de trem pela Estrada de Ferro Paraná, atravessando a fantástica Serra do Mar e, de quebra, degustar um prático típico da região. Para tanto, o trajeto escolhido foi o de Curitiba até a cidade de Morretes, famosa por sua culinária típica, onde o destaque é o Barreado.

Cedinho, após me fartar com uns deliciosos pastéis coreanos com café em copo de vidro, algo bem curitibano, nas imediações da estação de trens, tento matar o tempo com a leitura dos haicais de Jorge Luis Borges. Me chama a atenção o fato de que, se o haicai clássico possui desessete sílabas poéticas, então Borges, que era chegado em matemáticas e simetrias, escreveu exatamente desessete haicais. Por volta das oito horas da manhã, tem início a viagem, uma viagem de trem. Outra viagem de trem. Ainda que se possa fazer o mesmo trajeto de ônibus, e que o trem em questão tenha sido adaptado para um projeto turístico, havia pessoas no meu vagão que estavam ali na condição de passageiros comuns, vieram cuidar de afazeres na capital e apenas estavam voltando para casa, em Morretes ou Paranaguá. E não custa lembrar aqui que a viagem pode ser extendida até a cidade portuária de Paranaguá. E dali para a idílica e romântica Ilha do Mel é questão de apenas embarcar numa balsa, mas essa é uma viagem que recomendo para que se faça em ótima companhia, preferencialmente sob os eflúvios do Cupido.

Trem andando, paisagens desfilando. É assim o tempo todo nessa experiência que tem aspectos históricos, políticos, geográficos, climáticos e culturais. Uma guia de turismo que acompanha o povo durante o percurso vai logo avisando que no trajeto de ida é melhor escolher os lugares do lado esquerdo do vagão, para poder melhor desfrutar da visão das paisagens. A moça faz uma apresentação do projeto turístico e complementa com informações diversas sobre a ferrovia, a Serra do Mar e aspectos interessantes das cidades do trajeto. E assim segue a viagem, onde aos poucos a capital vai ficando para trás e vamos nos acostumando com o suave balanço do trem e nos assombrando com as belezas dos campos da região. Logo o relevo vai ficando mais acidentado e vamos aos poucos adentrando na cadeia de montanhas, com subidas, descidas, curvas e movimentos que são de tirar o fôlego de alguns passageiros. Sem falar no medo de alguns pelo fato de o trem em certos momentos rodar sobre trilhos que literalmente estão à beira de abismos, dos mais assustadores, onde a impressão que se tem é que o trem está voando. Não falta quem compare a experiência à uma imensa montanha-russa que roda num cenário natural, ladeado por picos de um lado e rios de outro.

E assim segue a viagem, entre um e outro sobressalto de algumas turistas mais entusiasmadas. Ao se passar por pequenos povoados pode-se ver também um pouco do modo vida daquelas populações de descendentes dos imigrantes alemães, italianos, poloneses e ucranianos que povoaram a região. Chamou a atenção nas imediações de um vilarejo, a placa de um bar, o Bar dos Canalhas. Ao menos é o que dizia a placa. É pena que o trem não tenha parado por ali! Mais adiante, o que alguns consideram como o ponto alto da viagem, a travessia de um túnel, onde ao final, o mesmo termina numa curva diante de um precipício. Ocorre que de dentro do trem, como não se pode ver os trilhos à frente, a sensação que se tem é de que o trem ao sair do túnel irá despencar no abismo, ou sair voando, então imagine o alarido de algumas passageiras desavisadas! Passado o susto, todos voltam a se maravilhar com as deslumbrantes paisagens de verde vivo e céu azul.

Alguns anos depois eu lembraria desta viagem num trajeto similar em alguns aspectos. Estava no trem que faz o percurso de Águas Calientes até Cuzco, no Peru, algo em torno de oitenta kilometros. Águas Calientes é uma cidadezinha que fica aos pés da montanha de Machu Picchu, e dali, após ter feito à pé a Trilha Inca, de quatro dias, até o santuário sagrado de Machu Picchu, retorna-se de trem para Cuzco, bebericando um tradicional chá de coca, que é a coisa mais comum por lá e só faz bem. O itinerário passa também pelo Vale dos Reis e tem paisagens magníficas, que naquele momento me lembraram a inesquecível Serra do Mar paranaense.

Finalmente chega-se à pequena e pacata Morretes, cujo povo orgulha-se do lema da cidade - Morretes: sua natureza é encantar! De fato os morretenses além de simpáticos e atenciosos tem sua pequena e tranquila cidade cercada por aquelas montanhas todas, e a gente sente na hora a diferença do ar puro da região. Após um passeio pelas principais ruas e praças, visitei o espaço cultural da cidade, com biblioteca, exposição de arte e até um espaço para escritores pernoitarem quando ali forem lançar algum livro.

Na seqüência encontrei um bom restaurante onde servem o tradicional Barreado, prato que os paranaenses herdaram dos açorianos. Consiste num cozido de carne que leva em torno de 24 horas de cozimento, com o vapor vedado, até que a carne se desfia e forma um caldo delicioso, servido com arroz, farinha especial e bananas, tudo acompanhado de um aperitivo de cachaça artesanal de banana. Da sacada do restaurante, a paisagem se completa com a imensa árvore flanboyant refletindo no riozinho que corta a cidade, um haicai. E mais ao fundo o desenho sinuoso da linha do trem, que ao voltar de Paranaguá, me levará de volta para Curitiba. Ao degustar a sobremesa com laranjas naturais, medito sobre essa estranha coceira na sola do pé, e que ataca gente do Japão medieval e gente de aqui e agora. Assim não dá pra não lembrar de Leminski quando nos avisa que “a viagem que não fiz, dói dentro de mim, como a raiz de uma árvore sem fim.”





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O Trem da Poesia - Crônica de Tchello d'Barros

O Trem da Poesia

“Não há trem que eu não tomaria, não importa o lugar para onde vá.”
Edna St. Vincent Milay



Aí estamos nós, artistas de Blumenau, amantes da poesia, em plena praça do Biergartem, posando nesta foto para uma reportagem do Jornal de Santa Catarina, que contaria sobre nossa participação em uma edição no Congresso Brasileiro de Poesia, em Bento Gonçalves. Creio que seja 1.996 d. C., ano da graça de Nosso Senhor. A participação dos catarinenses deveu-se ao ator Antônio Leopolski, que era professor do NuTE – Núcleo de Teatro e Escola, no Teatro Carlos Gomes. Conheci-o quando interpretou alguns personagens na peça shakespeareana Macbeth, dirigida numa versão vanguardista e experimental pelo Alexandre Venera dos Santos.

Leopolski era também adepto do Teatro de Bonecos, e com seu Bando Neon, apresentava-se em diversos circuitos culturais com suas performances e intervenções. Para esse congresso convidou vários teatreiros para interpretar e declamar poemas de autores da cidade na programação daquela semana poética que ocorreria na serra gaúcha. Participaram ainda a cantora Nana Toledo e seu violão mágico, o artista visual Tadeu Bittencourt, com seus slides do projeto Projetando Poesia, a pintura performática do Alex também se fez presente, o jovem diretor de teatro Sílvio da Luz e ainda o poeta Marcelo Steil, que participaria declamando seus poemas. Este relator foi convidado também, para declamar poemas próprios e para realizar naquela cidade uma nova versão do Bombardeio Poético, intervenção urbana que realizei em Blumenau no dia do cinqüentenário das bombas atômicas. A ação constituiu-se em decolar num teco-teco no aeroporto Quero-quero - no caso, o mesmo monomotor do qual eu saltava de pára-quedas com o pessoal do Clube de Paraquedismo Vento Sul – e sobrevoar a cidade, despejando aviõezinhos de papel com meus poemas impressos. Para esta ação, convidei os poetas Dênnis Radünz e Marcelo Steil, que com seus respectivos poemas, ajudaram-me a bombardear Blumenau.

Depois de uma reunião com o poeta Lindolf Bell, que nos deu uma cópia do poema A Geração das Crianças Traídas, o qual lemos no evento posteriormente, lá se foi a animada trupe poética em direção ao Rio Grande do Sul, em ônibus “de linha” convencional, passando por Lages e depois trocando de carro em Caxias do Sul. Lá pelas sete da matina, chegávamos na rodoviária de Bento Gonçalves, onde para nossa surpresa, fomos recebidos pelo poeta Pedro Fontoura, declamador de poesia gauchesca, sendo que já foi nos saudando com uns versos improvisados e umas cuias quentes do mais tradicional chimarrão, antes de nos encaminhar ao alojamento.

Foi uma ótima semana de atividades literárias e artísticas, com vasta programação cultural, onde todos participamos com muitas declamações, leituras e performances nos vários espaços onde se realizavam os eventos, especialmente nas escolas e espaços culturais. É claro que “os catarinas”, como os gaudérios nos chamavam, fizeram bonito, participaram com entusiasmo das atividades e representaram muito bem nosso Estado barriga-verde. O evento era também um festival de sotaques, pois estavam lá poetas de diversos Estados e alguns de outros países, como França, Itália, Portugal, Cuba, Argentina e Uruguai. Como na época eu já expunha em Blumenau uma parte de minha incipiente produção em Poesia Visual, foi para mim uma alegria conhecer no evento dois ícones dessa modalidade de expressão poética experimental, o uruguaio Clemente Padin e o português Fernando Aguiar, com os quais mantenho correspondência até hoje. E por falar em Poesia Visual, não poderia faltar por lá o maior conhecedor do assunto no Brasil, o mineiro Hugo Pontes, que na ocasião realizava a curadoria de uma mostra internacional de poemas visuais. Lá eu conheceria ainda o escritor viajante Aírton Ortiz, que escreve livros com relatos de suas aventuras mundo afora. É o autor de Passagem para a índia, onde relata suas aventuras pelo país de Gandhi, viajando exclusivamente em trens.

Tudo corria muito bem, quando na sexta-feira, penúltimo dia, o poeta Ademir Bacca, coordenador do congresso, me disse que seria impossível realizar o Bombardeio Poético na manhã seguinte, como estava previsto, pois os técnicos do aeroporto da região informaram que um fenômeno climático caracterizado por nuvens baixas impediria que o avião fizesse o percurso combinado. Normalmente uma notícia dessas nos deixaria de baixo-astral, no entanto, depois de uma semanada de poesia, de confraternização com poetas dos mais variados naipes, de autênticas vivências culturais, nada poderia abalar a moral. Mas o fato é que lá estava eu com um saco repleto de poemas impressos. Sim, a poesia às vezes enche o saco! O fato é que na manhã seguinte, em pleno sábado, com a cidade movimentada, com eventos cívicos na praça da prefeitura, o Tadeu Bittencourt e eu fomos escalados para dar uma entrevista numa rádio, na rua central, sendo que o estúdio ficava no último andar do prédio. Entrevista dada, contamos depois aos radialistas que naquele horário deveria estar acontecendo o tal bombardeio, quando o Tadeu, com sua experiência de marinheiro, percebeu na janela que a direção do vento dava para a praça da prefeitura onde aconteciam os desfiles e havia uma multidão na rua. Então o pessoal da rádio liberou para que fôssemos ao teto do prédio e de lá fomos soltando os poemas, que ao sabor do minuano, chegavam até o povo na rua central. De início pensavam tratar-se de panfletos políticos, no entanto, ato seguinte havia mesmo uns grupos que disputavam os poemas que lhes vinham chegando pelo ar.

Bem, essa intervenção não foi assim aquele bombardeio todo, como previsto no projeto original, entretanto, de uma maneira improvisada e meio que subversiva até, fizemos com que a poesia chegasse até as pessoas. A atividade causou um certo burburinho, o que chamou a atenção de uma equipe da TV Futura que estava na cidade, e por conta disso acabei sendo convidado para a gravação de uma matéria onde três poetas brasileiros e três estranjeiros fariam declamações de poemas aos passageiros do trem Maria Fumaça, um dos mais tradicionais passeios turísticos de Bento Gonçalves. Como ainda havia muitos poemas impressos, tratei de levá-los também, e assim que a Maria Fumaça se pôs em marcha, tratamos de invadir cada vagão, onde cada um dos cerca de quatrocentos turistas recebeu em mãos um poema de meu livro Olho Nu ou do recém lançado Palavrório. Como nesse trajeto estavam programadas algumas atrações da cultura gauchesca dentro dos vagões, os passageiros pensavam que os tais poemas estavam inseridos nessa programação, onde acabei fazendo papel de gaúcho, sem querer, um gaudério de araque, sem sotaque nem bombacha, ainda que neto do maestro gaúcho Frederico Klein. De qualquer forma, a panfletagem literária serviu de preparação para o que viria a seguir. O grupo entrava em cada vagão e após uma breve apresentação iniciava-se um sarau de poesia, onde os poetasse revezavam nas declamações. Ao final de cada vagão, nos despedia-mos sob aplausos acalorados e muitos agradecimentos.

Ao final de nossas tertúlias improvisadas, depois de gravações e entrevistas, ficamos no último vagão, em assentos reservados para nós e seguimos viagem, agora na condição de passageiros normais, digamos assim, no famoso Trem do Vinho, como também é conhecido. Nos vinte e três km do trajeto, passamos por diversas estações, que eram paradas estratégicas, onde os passageiros desciam para degustar produtos da culinária regional como queijos e salames, sempre bebericando vinhos e espumantes. Interessante que à cada estação o povo estava mais alegre! Numa delas houve apresentação de um grupo de jovens senhoritas, com trajes típicos italianos, que dançaram uma coreografia da cultura de seus antepassados colonizadores, uma simpática forma de preservar as tradições locais, assim como existem os grupos folclóricos alemães, em Blumenau. Noutra estação, entre um e outro copo de cabernet, descobrimos uma fonte dos desejos, dessas em que se faz um pedido e, à maneira da Fontana Di Trevi, em Roma, joga-se por sobre o ombro uma moeda. Voltar ali foi o desejo pedido, que num futuro não muito distante, foi plenamente atendido. E seguimos viagem, passando pelos arredores das cidades de Carlos Barbosa e Garibaldi, apreciando as belezas dos pampas, com seus verdes cor de erva-mate, capões e pradarias do Vale dos Vinhedos, como é conhecida a região.

Mas as apresentações culturais não aconteciam apenas nas estações. Dentro dos vagões, em pleno movimento, a cada rodada de vinho, diversos artistas apresentavam-se. Havia desde músicos apresentando a típica canção nativista até poetas declamadores dali da região, que improvisavam no ato suas sextilhas rimadas, semelhantes aos repentistas nordestinos. Havia também um esquete com teatro de comédia e mais tarde um grupo de dança de Tarantela, onde os dançarinos após uma demonstração, convidavam os passageiros para dançar com eles. A moça que me tirou para dançar era tão linda, mas tão linda, que cheguei a pensar mais tarde que fosse a Giselle Bündchen antes de ficar famosa. Depois descobri que a ubermodel vivia em outra cidade.

Agora degustando uma taça de chardonnay, contemplava o céu azul daquelas querências, no agradável e leve sacolejo ritmado da Maria Fumaça. Estava nesses devaneios quando lembrei que não cheguei a viajar no trem de Blumenau. Mas não era exatamente a primeira vez que andava de trem, quando criancinha teria viajado no trajeto de Piratuba à Marcelino Ramos, percurso que hoje também existe nos mesmos moldes turísticos do trem em que me encontrava. E também havia percorrido pequenos trechos nos arredores de Lages, numa locomotiva da RFFSA, um trem militar do 1º Batalhão Ferroviário de Engenharia Militar, onde prestei o serviço militar na condição de voluntário. E o que o soldado 884 do sexto pelotão estava fazendo ali? Ora, descarregando os vagões com as sacas de cimento, onde cada uma pesava cinquenta quilos! Bah, prefiro o romantismo do trem da serra gaúcha, tchê!

Enfim, a última parada foi na fábrica Tramontina, onde os turistas desceram para visitar o show-room da tradicional empresa. Optei por ficar no vagão, curtindo os efeitos da equação poético-etílica, quando para minha surpresa, as moçoilas da apresentação de dança, pensando não haver ninguém nos vagões, e foram para o outro lado do trem, e com seus vestidos de trajes típicos, na maior farra, dançavam um animado Can-can! Mais tarde lembraria com nostalgia dessa Maria Fumaça. Foi no trajeto do Canal da Mancha, a bordo do ultra moderno Eurostar, onde sob uma velocidade de 150 km/h em poucas horas se faz o trajeto Londres-Paris. Na ocasião, uma funcionária tentava me vender um suco de laranja no vagão claustrofóbico, abaixo do nível do mar. Naquele momento trocaria toda aquela modernidade européia pelo romantismo nostálgico, o bom vinho, os poetas e o sorriso de uma musa naquele dia distante, no trem da poesia.




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