O Trem da Terra dos Marechais
“A única maneira de não perder o trem é perder o que vem antes dele.”
G. K. Chesterton
Em pleno 2008, já com saudades da Oktoberfest, estou novamente dentro de um alfarrábio. Este é o nome com que os alagoanos chamam os tradicionais sebos, repletos de livros usados, nas ruas próximas à CBTU, a estação de trens de Maceió. Nas mãos, um exemplar de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, o autor alagoano nascido em Quebrangulo. Folheando o livro para ver se ali encontro as gravuras do cearense Aldemir Martins, que teriam sido impressas na edição original, acabo por lembrar que há pouco encontrava-me em Blumenau, por ocasião do Encontro Internacional de Literatura Lusófona. O evento, organizado pelo incansável Luiz Eduardo Caminha, foi uma promoção do portal literário Cá Estamos Nós, do escritor português Carlos Leite Ribeiro, que há mais de uma década mantém uma bela amizade com os autores da loura cidade do Vale Europeu.
Entre outras peripécias culturais, minha presença no evento deveu-se principalmente pela apresentação de minha exposição de Poesia Visual intitulada “Convergências”, que nessa edição ocorreu no Viena Park Hotel, local da realização do referido evento. Na ocasião, acompanhado pelo escritor pernambucano Luiz Alberto Machado, tratamos de visitar o alfarrábio, digo, sebo, da cidade, o Book Center, onde o Nilto nos recebeu com a simpatia de sempre e lá encontramos livros de vários membros da Sociedade Escritores de Blumenau, incluindo as coletâneas que editei para essa instituição literária, Um Rio de Letras e Espelhos da Língua. Numa boa caminhada pela Rua XV de Novembro, a rua da linguiça, meu colega ficou impressionado com a arquitetura no estilo Enxaimel, com a beleza das blumenauenses, of course, e até mesmo com a estrutura da Ponte de Ferro, onde antigamente passava o trem de Blumenau. Após degustarmos um chope no Biergartem e visitarmos obras de minha querida e saudosa amiga Elke Hering, na Fundação Cultural, participamos com outros escritores de um sarau poético, o Valentinestag, na biblioteca Fritz Müller, um de meus locais afetivos na cidade. E dias depois, voltando ali, deparo-me com uma bela exposição iconográfica sobre a vida e obra do autor de Vidas Secas. Gostei muito, embora eu duvide que, numa equivalência cultural, a biblioteca de Maceió realize uma exposição sobre a vida e obra do catarinense Cruz e Souza.
Uma semana mais tarde, aí estamos em Maceió, circulando entre os alfarrábios, perguntando sobre obras de autores alagoanos. E assim chegam-me às mãos o clássico Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, o poeta e artista plástico nascido na mesma União dos Palmares do quilombola Zumbi. Inevitável lembrar que o autor do poema Nega Fulô era sempre recomendado pelo poeta Lindolf Bell em nossas conversas sobre literatura brasileira. Na calçada dos surpreendentes quiosques-sebos, à sombra da Assembléia Legislativa, encontro um exemplar do emblemático Ninho de Cobras, romance do maceioense Lêdo Ivo, em prosa poética, que reputo como um dos mais interessantes livros escritos em nosso idioma. Não adquiri o exemplar, pois já possuo um volume, devidamente autografado pelo autor, um livro lindo, lido, relido e trelido. O vendedor não sabia que Lêdo continua vivo, com seus lúcidos oitenta e cinco anos, radicado no Rio de Janeiro. E após recusar algumas publicações de poetastros contemporâneos, tive a agradável surpresa de me deparar com um exemplar de instigantes poemas galantes de Marcos de Farias Costa, que é também proprietário de um alfarrábio, o seletivo Dialética.
Munido com as novas aquisições literárias, dirijo-me finalmente para a CBTU, a fim de garantir meu bilhete de passagem para uma viagem de trem para a cidade de Rio Largo. Antes de chegar, passo pelos intermináveis muros laterais da própria estação e ei-los completamente tomados de poemas pintados, projeto de décadas atrás, sendo que a maioria dos textos já está ilegível pela ação do tempo e das intempéries. Mas ainda é possível ler o curioso poemeto de uma certa Rosiane Rodrigues, que nos conta que “a teia do anjo/ à deriva do tempo/enrosca a nave/do desejo”. Defronte à estação, degusto um caldo de cana gelado e depois de uma última visada nas águas cor de berilo da Praia da Avenida, adentro a estação, passando pelas inusitadas esculturas formadas com pedaços de trilhos e dormentes, representando elementos do folclore alagoano, como as danças de Guerreiro e Pastoril.
Já de bilhete em mãos, circulo pelo corredor, tomado pelos passageiros que serão levados às cidades-dormitório da região metropolitana de Maceió, compondo um roteiro de 32 km, culminando em Lourenço de Albuquerque. Após passar pelas catracas, chego às plataformas de embarque, com suas dezenas de colunas quadradas, onde numa das edições da tradicional festa rave Substation, essas colunas receberam plotagens de dois metros de altura, com meus poemas da série Ideogramas, do livro Olho Nu, na coleção Poesia de Santa Catarina, leia-se Péricles Prade e Fábio Brüggemann. Os poemas neoconcretistas ficaram por cerca de um mês nessas colunas, e era interessante ver os milhares de estudantes que circulam diariamente na estação, anotando os poemas em seus cadernos, fotografando com celulares e até mesmo tentando decorá-los. Mas naquele momento não havia poema nenhum, a não ser os dos livros que eu carregava. Como que para me acordar do devaneio, o maquinista apitou o sinal para embarcarmos.
Os vagões coloridos externamente com motivos do Nordeste, da locomotiva Nordestina, entram em movimento, e assim logo passamos por um dos trens que mais chamam a atenção na estação, a Brasileirinha, toda pintada com berrantes tonalidades de verde e amarelo. E mais adiante passamos pela Estrela Radiosa, uma locomotiva toda pintada em vermelho, branco e azul, as cores heráldicas da bandeira alagoana. Vou me abancando no vagão, quase cheio, com os bancos ocupados principalmente por moradores dos bairros da cidade por onde os trilhos passam. Um senhor, sentado à minha frente, reclama com o amigo sobre o juiz ter roubado no clássico entre o CRB e o CSA, principais times de futebol desta que é a terra da maior jogadora de futebol do mundo, a Marta. Dois rapazes de óculos, mais ao lado, creio que fossem professores, discutiam qualquer coisa sobre a proclamação da república, pois a mesma foi proclamada pelo alagoano Marechal Deodoro e consolidada pelo também alagoano Marechal Floriano. Voyeur auditivo, tentei ouvir a conversa de duas senhoras de aspecto bastante religioso, com bíblias em punho, cabelo em coque e saias muito compridas. Sei apenas que comentavam algo sobre o filho do Collor candidatar-se a prefeito na cidade de Rio Largo, ou algo assim. No banco de trás, duas morenas vistosas e sorridentes tricotavam trivialidades, era um papo sobre culotes, estrias e celulites, tema universal da natureza feminina.
De repente o trem começa a apitar diversas vezes seguidas, e uns garotos no vagão correm em algazarra para as janelas, atiçando minha curiosidade. É o aviso de que, ainda em Maceió, estamos chegando à Feira do Passarinho, que por acaso é tema de um de meus cordéis, e no caso, sob os avisos do trem, os feirantes que tem suas mercadorias nos nichos entre os trilhos tiram apressados os produtos, numa correria, para que o trem possa passar. A garotada fazia a maior gozação com os feirantes, que xingavam de volta e assim que o trem passa, em questão de segundos lá estavam sobre os trilhos os produtos novamente, relógios usados, celulares de procedência duvidosa, ferramentas variadas, CDs piratas e artigos nessa linha. Nessa linha do trem. Em seguida, após passar por outros bairros como o Bom Parto, Bebedouro e Sururu de Capote, logo chegamos à estação de Fernão Velho, região bonita, onde por um bom trecho do percurso, a locomotiva margeia a imensa lagoa Mundaú. E assim, segue seu destino passando pelas estações de ABC, Rio Novo, Satuba, Utinga, Rio Largo e finalmente Lourenço de Albuquerque. O itinerário foi pontuado por diversas vilas, fazendas, paisagens verdejantes e as inevitáveis plantações de cana-de-açúcar. As usinas e antigos engenhos são parte do cenário, onde o destaque fica também por conta das próprias estações ferroviárias, muito antigas, já que se trata de uma via férrea centenária.
A viagem transcorreu com tranqüilidade, e os passageiros de meu vagão iam sendo aos poucos trocados, como que substituídos, desciam alguns, entravam outros. Chamou minha atenção o fato de haver guardas armados no trem. Um deles me contou que é uma medida de segurança para os usuários, e me apontou vilas onde vivem famosos pistoleiros da região e mesmo uma fazenda que havia sido tomada certa vez pelo bando de Lampião, que aterrorizou muito por essas bandas. Embora o moço trabalhasse há pouco tempo na função, disse não lembrar de notícias sobre acidentes ou descarrilhamentos. Isso me lembrou uma história de trens que me foi contada pelo poeta Jairo Martins, de Blumenau, quando de suas andanças pelos Andes. Num certo trecho, no Peru, houve um acidente no trem em que ele estava, ficando a locomotiva dependurada em uma ponte. Fiquei imaginando a cena ilustrada pelo fenomenal artista Telomar Florêncio, outro confesso apaixonado por trens. Só que numa pintura do Telomar, esse trem já levantaria vôo, e lá de cima veríamos os enigmáticos desenhos do deserto de Nazca ou as ilhas flutuantes de Los Uros, no lago Titicaca, já que nada é impossível quando se trata da pintura desse artista.
Estava viajando nesses delírios, quando me avisam que chegamos a meu destino, Rio Largo. No entanto essa seria a penúltima estação, pois a derradeira seria a de Lourenço de Albuquerque, cidade colada na outra. Assim, resolvi ir até a estação final. Apesar do roteiro relativamente curto, a pouca velocidade do trem fez com que a viagem durasse cerca de uma hora e meia. Apenas desci e caminhei um pouco pelas ruas centrais da cidadela, provando uma água-de-coco gelada. Em pouco tempo, já estava no perímetro de Rio Largo. Trata-se de uma cidade antiga, que parou de se desenvolver e apresenta muitas ruínas dos tempos áureos dos grandes engenhos. O rio Mundaú, corta a cidade e daí a nominação. Flanar pela animada feira de rua, pelas ruínas e igrejas da cidade foi a atividade desse dia, já que não havia nenhum compromisso ali, apenas uma boa desculpa para uma viagem de trem. Num restaurante da rua central, provei uma tradicional carne-de-sol com macaxeira cozida, temperada com manteiga de garrafa. No acompanhamento, feijão-de-corda e queijo-coalho. Para beber optei por um suco de cajá.
Zanzando pela cidade, obrigação de viajores, peregrinos, vagabundos e curiosos como eu, tive oportunidade de conversar com vários cidadãos, sempre atenciosos e simpáticos, de um jeito que só os nordestinos sabem ser. Meu sotaque catarinense, estranhíssimo para os nordestinos do chamado Brasil profundo, fez com que, ao final de um bate-papo com um senhor numa praça, antes de me despedir, ele me perguntasse de que país eu era... Eu sabia que ali, teria sido uma das regiões onde os índios Caetés foram dizimados, por conta do episódio histórico do Bispo Sardinha, que teria sido canibalizado por eles, segundo alguns historiadores de índole questionável. Sabia também que os Batavos teriam tentado invadir a cidade no período de ocupação holandesa, comandada pelo alemão Maurício de Nassau. Então, minha curiosidade histórica era se o alagoano Calabar, traidor para uns, herói para outros – inclusive para este cronista – teria participado das batalhas ali na região. Ninguém soube responder isso, pois não há evidência escrita de sua passagem por ali, o que não impede que muitos o considerem o primeiro herói desse país. Mesmo assim, ele é muito mais valorizado, digamos assim, na Holanda que por aqui, mesmo caso de minha heroína preferida, a catarinense Anita Garibaldi, que na Itália tem até estátua.
Elucubrava essas divagações quando me dei conta de que era hora de me dirigir para a estação a fim de voltar para a capital alagoana. Já devidamente abancado no vagão, uma última visada nas casinhas de alvenaria, enfileiradas em suas cores alegres, me fizeram lembrar de umas fases do pintor Volpi, que retratou tão bem essas fachadas coloridas de casas do Nordeste. Compro um picolé de tapioca – sim, isso existe! – e reencontro o guarda do trem. O mesmo me convida para refazer o percurso durante o período das festas juninas, quando se realiza o projeto Trem do Forró, onde os vagões são decorados com bandeirinhas coloridas e os autênticos trios forrozeiros transformam os vagões em espaços de dança, folclore e muita festa. Tá anotado. No retorno, já contemplando o crepúsculo refletindo-se nas águas plácidas da Lagoa Mundaú, rememoro outra viagem de trem, menos tranquila, no percurso de Bruxelas para Amsterdã. Estava euzinho ali, vendo se na paisagem dos países baixos apareceria algum moinho, quando depois que estávamos já abaixo do nível do mar, entram alguns policiais no vagão, dão uma boa olhada nos passageiros e então, com um imenso cachorro preto, o grupo vem direto em mim e me convidam para acompanhá-los num vagonete para revista. Revistaram minha roupa e bagagem e fizeram o cachorrão me farejar e depois farejar minha bagagem, conferiram meus documentos, fizeram anotações, me entrevistaram sobre quem eu era, de onde vinha e para onde ia. Fizeram um questionário e tanto, só faltou perguntar se eu preferia rollmops ou caldinho de sururu. Ao final, desculparam-se e explicaram que esse é um procedimento padrão para coibir o tráfico de drogas na região, já que na Holanda há uma grande tolerância para o uso de várias drogas. Então perguntei porque vieram logo em mim, e um deles disse que é porque eu tinha um tipo latino e podia muito bem ser um colombiano traficando. Ao final me desejaram boa-viagem e que eu aproveitasse bem a capital dos batavos.
Antes de chegar na estação final em Maceió, releio algumas páginas de Vidas Secas, apesar do leve balanço do trem. Noto que aquele universo árido do personagem Fabiano é muito diferente da recém visitada Rio Largo e mais ainda da cosmopolita Maceió. E daí? Daí que assim como um dia, este ocasional escrevinhador, esteve dentro de trens, alfarrábios e bibliotecas, hoje este texto está dentro de uma tela de computador e um dia estará dentro de um livro. E mais adiante, quiçá, dentro de um sebo ou alfarrábio...
Tchello d’Barros
www.tchello.art.br
domingo, 16 de agosto de 2009
O Trem da Serra do Mar - Crônica de Tchello d'Barros
O Trem da Serra do Mar
“As estações ferroviárias são a porta para o glorioso e o desconhecido. Através delas mergulhamos na aventura. Através delas, infelizmente, voltamos.”
E. M. Forster
O poeta Bashô viveu no Japão medieval do século XVII e seus biógrafos divergem um pouco sobre ele, mas parece consenso que exerceu várias atividades, tendo sido além de samurai, um professor erudito, e mais tarde um monge zen. Para além dessas questões, notabilizou-se por percorrer à pé longas distâncias pelo país, de aldeia em aldeia, onde divulgava seus haicais, uma forma de poema que na época era praticada apenas pela nobreza dos shogunatos. Assim, esse poeta andarilho tornou popular essa forma sucinta de poema, sendo que séculos depois se espalharia pelo mundo, tendo sido trazida para o Brasil, há quase um século pelo poeta Guilherme de Almeida. Hoje é praticada mesmo na germânica cidade catarinense de Blumenau, onde, apenas como referência, podemos citar poetas como Martinho Bruning, Edith Kormann, Nassau de Souza, Tchello, Terezinha Manczak, Isnelda Weise, Margit Didjurgeit, entre outros. Bem, o fato é que Bashô escreveu certa vez que eventualmente sentia um certo formigamento na sola do pé, prenúncio de uma necessidade interna de viajar, de andar pelo mundo, de descortinar horizontes.
Parece que essa é uma necessidade atemporal do ser humano, mesmo em nosso ocidente contemporâneo e digital, vez em quando não há quem não sinta sua bússula interna apontar a agulha para algum ponto do mapa. Mas nem sempre é preciso atravessar oceanos ou desabalar-se para países distantes ou destinos exóticos, para se ter uma boa experiência de viagem, pois muitas vezes lugares e experiências interessantes estão mais perto de nós do que imaginamos. E foi assim que, aí pela virada do milênio, decidi passar um fim-de-semana na bela Curitiba, para conferir um pouco das inovações ecológicas da cidade onde morei quando criança. Cidade também de haicaístas, como Alice Ruiz, Andréa Motta, Helena Kolodi, Jiddu Saldanha, Marilda Confortin e Paulo Leminski, o cachorro-louco. Mas não bastava andar pelos parques e praças da capital paranaense, ou curtir a intensa programação cultural da cidade. O objetivo era também fazer um trajeto de trem pela Estrada de Ferro Paraná, atravessando a fantástica Serra do Mar e, de quebra, degustar um prático típico da região. Para tanto, o trajeto escolhido foi o de Curitiba até a cidade de Morretes, famosa por sua culinária típica, onde o destaque é o Barreado.
Cedinho, após me fartar com uns deliciosos pastéis coreanos com café em copo de vidro, algo bem curitibano, nas imediações da estação de trens, tento matar o tempo com a leitura dos haicais de Jorge Luis Borges. Me chama a atenção o fato de que, se o haicai clássico possui desessete sílabas poéticas, então Borges, que era chegado em matemáticas e simetrias, escreveu exatamente desessete haicais. Por volta das oito horas da manhã, tem início a viagem, uma viagem de trem. Outra viagem de trem. Ainda que se possa fazer o mesmo trajeto de ônibus, e que o trem em questão tenha sido adaptado para um projeto turístico, havia pessoas no meu vagão que estavam ali na condição de passageiros comuns, vieram cuidar de afazeres na capital e apenas estavam voltando para casa, em Morretes ou Paranaguá. E não custa lembrar aqui que a viagem pode ser extendida até a cidade portuária de Paranaguá. E dali para a idílica e romântica Ilha do Mel é questão de apenas embarcar numa balsa, mas essa é uma viagem que recomendo para que se faça em ótima companhia, preferencialmente sob os eflúvios do Cupido.
Trem andando, paisagens desfilando. É assim o tempo todo nessa experiência que tem aspectos históricos, políticos, geográficos, climáticos e culturais. Uma guia de turismo que acompanha o povo durante o percurso vai logo avisando que no trajeto de ida é melhor escolher os lugares do lado esquerdo do vagão, para poder melhor desfrutar da visão das paisagens. A moça faz uma apresentação do projeto turístico e complementa com informações diversas sobre a ferrovia, a Serra do Mar e aspectos interessantes das cidades do trajeto. E assim segue a viagem, onde aos poucos a capital vai ficando para trás e vamos nos acostumando com o suave balanço do trem e nos assombrando com as belezas dos campos da região. Logo o relevo vai ficando mais acidentado e vamos aos poucos adentrando na cadeia de montanhas, com subidas, descidas, curvas e movimentos que são de tirar o fôlego de alguns passageiros. Sem falar no medo de alguns pelo fato de o trem em certos momentos rodar sobre trilhos que literalmente estão à beira de abismos, dos mais assustadores, onde a impressão que se tem é que o trem está voando. Não falta quem compare a experiência à uma imensa montanha-russa que roda num cenário natural, ladeado por picos de um lado e rios de outro.
E assim segue a viagem, entre um e outro sobressalto de algumas turistas mais entusiasmadas. Ao se passar por pequenos povoados pode-se ver também um pouco do modo vida daquelas populações de descendentes dos imigrantes alemães, italianos, poloneses e ucranianos que povoaram a região. Chamou a atenção nas imediações de um vilarejo, a placa de um bar, o Bar dos Canalhas. Ao menos é o que dizia a placa. É pena que o trem não tenha parado por ali! Mais adiante, o que alguns consideram como o ponto alto da viagem, a travessia de um túnel, onde ao final, o mesmo termina numa curva diante de um precipício. Ocorre que de dentro do trem, como não se pode ver os trilhos à frente, a sensação que se tem é de que o trem ao sair do túnel irá despencar no abismo, ou sair voando, então imagine o alarido de algumas passageiras desavisadas! Passado o susto, todos voltam a se maravilhar com as deslumbrantes paisagens de verde vivo e céu azul.
Alguns anos depois eu lembraria desta viagem num trajeto similar em alguns aspectos. Estava no trem que faz o percurso de Águas Calientes até Cuzco, no Peru, algo em torno de oitenta kilometros. Águas Calientes é uma cidadezinha que fica aos pés da montanha de Machu Picchu, e dali, após ter feito à pé a Trilha Inca, de quatro dias, até o santuário sagrado de Machu Picchu, retorna-se de trem para Cuzco, bebericando um tradicional chá de coca, que é a coisa mais comum por lá e só faz bem. O itinerário passa também pelo Vale dos Reis e tem paisagens magníficas, que naquele momento me lembraram a inesquecível Serra do Mar paranaense.
Finalmente chega-se à pequena e pacata Morretes, cujo povo orgulha-se do lema da cidade - Morretes: sua natureza é encantar! De fato os morretenses além de simpáticos e atenciosos tem sua pequena e tranquila cidade cercada por aquelas montanhas todas, e a gente sente na hora a diferença do ar puro da região. Após um passeio pelas principais ruas e praças, visitei o espaço cultural da cidade, com biblioteca, exposição de arte e até um espaço para escritores pernoitarem quando ali forem lançar algum livro.
Na seqüência encontrei um bom restaurante onde servem o tradicional Barreado, prato que os paranaenses herdaram dos açorianos. Consiste num cozido de carne que leva em torno de 24 horas de cozimento, com o vapor vedado, até que a carne se desfia e forma um caldo delicioso, servido com arroz, farinha especial e bananas, tudo acompanhado de um aperitivo de cachaça artesanal de banana. Da sacada do restaurante, a paisagem se completa com a imensa árvore flanboyant refletindo no riozinho que corta a cidade, um haicai. E mais ao fundo o desenho sinuoso da linha do trem, que ao voltar de Paranaguá, me levará de volta para Curitiba. Ao degustar a sobremesa com laranjas naturais, medito sobre essa estranha coceira na sola do pé, e que ataca gente do Japão medieval e gente de aqui e agora. Assim não dá pra não lembrar de Leminski quando nos avisa que “a viagem que não fiz, dói dentro de mim, como a raiz de uma árvore sem fim.”
Tchello d’Barros
www.tchello.art.br
“As estações ferroviárias são a porta para o glorioso e o desconhecido. Através delas mergulhamos na aventura. Através delas, infelizmente, voltamos.”
E. M. Forster
O poeta Bashô viveu no Japão medieval do século XVII e seus biógrafos divergem um pouco sobre ele, mas parece consenso que exerceu várias atividades, tendo sido além de samurai, um professor erudito, e mais tarde um monge zen. Para além dessas questões, notabilizou-se por percorrer à pé longas distâncias pelo país, de aldeia em aldeia, onde divulgava seus haicais, uma forma de poema que na época era praticada apenas pela nobreza dos shogunatos. Assim, esse poeta andarilho tornou popular essa forma sucinta de poema, sendo que séculos depois se espalharia pelo mundo, tendo sido trazida para o Brasil, há quase um século pelo poeta Guilherme de Almeida. Hoje é praticada mesmo na germânica cidade catarinense de Blumenau, onde, apenas como referência, podemos citar poetas como Martinho Bruning, Edith Kormann, Nassau de Souza, Tchello, Terezinha Manczak, Isnelda Weise, Margit Didjurgeit, entre outros. Bem, o fato é que Bashô escreveu certa vez que eventualmente sentia um certo formigamento na sola do pé, prenúncio de uma necessidade interna de viajar, de andar pelo mundo, de descortinar horizontes.
Parece que essa é uma necessidade atemporal do ser humano, mesmo em nosso ocidente contemporâneo e digital, vez em quando não há quem não sinta sua bússula interna apontar a agulha para algum ponto do mapa. Mas nem sempre é preciso atravessar oceanos ou desabalar-se para países distantes ou destinos exóticos, para se ter uma boa experiência de viagem, pois muitas vezes lugares e experiências interessantes estão mais perto de nós do que imaginamos. E foi assim que, aí pela virada do milênio, decidi passar um fim-de-semana na bela Curitiba, para conferir um pouco das inovações ecológicas da cidade onde morei quando criança. Cidade também de haicaístas, como Alice Ruiz, Andréa Motta, Helena Kolodi, Jiddu Saldanha, Marilda Confortin e Paulo Leminski, o cachorro-louco. Mas não bastava andar pelos parques e praças da capital paranaense, ou curtir a intensa programação cultural da cidade. O objetivo era também fazer um trajeto de trem pela Estrada de Ferro Paraná, atravessando a fantástica Serra do Mar e, de quebra, degustar um prático típico da região. Para tanto, o trajeto escolhido foi o de Curitiba até a cidade de Morretes, famosa por sua culinária típica, onde o destaque é o Barreado.
Cedinho, após me fartar com uns deliciosos pastéis coreanos com café em copo de vidro, algo bem curitibano, nas imediações da estação de trens, tento matar o tempo com a leitura dos haicais de Jorge Luis Borges. Me chama a atenção o fato de que, se o haicai clássico possui desessete sílabas poéticas, então Borges, que era chegado em matemáticas e simetrias, escreveu exatamente desessete haicais. Por volta das oito horas da manhã, tem início a viagem, uma viagem de trem. Outra viagem de trem. Ainda que se possa fazer o mesmo trajeto de ônibus, e que o trem em questão tenha sido adaptado para um projeto turístico, havia pessoas no meu vagão que estavam ali na condição de passageiros comuns, vieram cuidar de afazeres na capital e apenas estavam voltando para casa, em Morretes ou Paranaguá. E não custa lembrar aqui que a viagem pode ser extendida até a cidade portuária de Paranaguá. E dali para a idílica e romântica Ilha do Mel é questão de apenas embarcar numa balsa, mas essa é uma viagem que recomendo para que se faça em ótima companhia, preferencialmente sob os eflúvios do Cupido.
Trem andando, paisagens desfilando. É assim o tempo todo nessa experiência que tem aspectos históricos, políticos, geográficos, climáticos e culturais. Uma guia de turismo que acompanha o povo durante o percurso vai logo avisando que no trajeto de ida é melhor escolher os lugares do lado esquerdo do vagão, para poder melhor desfrutar da visão das paisagens. A moça faz uma apresentação do projeto turístico e complementa com informações diversas sobre a ferrovia, a Serra do Mar e aspectos interessantes das cidades do trajeto. E assim segue a viagem, onde aos poucos a capital vai ficando para trás e vamos nos acostumando com o suave balanço do trem e nos assombrando com as belezas dos campos da região. Logo o relevo vai ficando mais acidentado e vamos aos poucos adentrando na cadeia de montanhas, com subidas, descidas, curvas e movimentos que são de tirar o fôlego de alguns passageiros. Sem falar no medo de alguns pelo fato de o trem em certos momentos rodar sobre trilhos que literalmente estão à beira de abismos, dos mais assustadores, onde a impressão que se tem é que o trem está voando. Não falta quem compare a experiência à uma imensa montanha-russa que roda num cenário natural, ladeado por picos de um lado e rios de outro.
E assim segue a viagem, entre um e outro sobressalto de algumas turistas mais entusiasmadas. Ao se passar por pequenos povoados pode-se ver também um pouco do modo vida daquelas populações de descendentes dos imigrantes alemães, italianos, poloneses e ucranianos que povoaram a região. Chamou a atenção nas imediações de um vilarejo, a placa de um bar, o Bar dos Canalhas. Ao menos é o que dizia a placa. É pena que o trem não tenha parado por ali! Mais adiante, o que alguns consideram como o ponto alto da viagem, a travessia de um túnel, onde ao final, o mesmo termina numa curva diante de um precipício. Ocorre que de dentro do trem, como não se pode ver os trilhos à frente, a sensação que se tem é de que o trem ao sair do túnel irá despencar no abismo, ou sair voando, então imagine o alarido de algumas passageiras desavisadas! Passado o susto, todos voltam a se maravilhar com as deslumbrantes paisagens de verde vivo e céu azul.
Alguns anos depois eu lembraria desta viagem num trajeto similar em alguns aspectos. Estava no trem que faz o percurso de Águas Calientes até Cuzco, no Peru, algo em torno de oitenta kilometros. Águas Calientes é uma cidadezinha que fica aos pés da montanha de Machu Picchu, e dali, após ter feito à pé a Trilha Inca, de quatro dias, até o santuário sagrado de Machu Picchu, retorna-se de trem para Cuzco, bebericando um tradicional chá de coca, que é a coisa mais comum por lá e só faz bem. O itinerário passa também pelo Vale dos Reis e tem paisagens magníficas, que naquele momento me lembraram a inesquecível Serra do Mar paranaense.
Finalmente chega-se à pequena e pacata Morretes, cujo povo orgulha-se do lema da cidade - Morretes: sua natureza é encantar! De fato os morretenses além de simpáticos e atenciosos tem sua pequena e tranquila cidade cercada por aquelas montanhas todas, e a gente sente na hora a diferença do ar puro da região. Após um passeio pelas principais ruas e praças, visitei o espaço cultural da cidade, com biblioteca, exposição de arte e até um espaço para escritores pernoitarem quando ali forem lançar algum livro.
Na seqüência encontrei um bom restaurante onde servem o tradicional Barreado, prato que os paranaenses herdaram dos açorianos. Consiste num cozido de carne que leva em torno de 24 horas de cozimento, com o vapor vedado, até que a carne se desfia e forma um caldo delicioso, servido com arroz, farinha especial e bananas, tudo acompanhado de um aperitivo de cachaça artesanal de banana. Da sacada do restaurante, a paisagem se completa com a imensa árvore flanboyant refletindo no riozinho que corta a cidade, um haicai. E mais ao fundo o desenho sinuoso da linha do trem, que ao voltar de Paranaguá, me levará de volta para Curitiba. Ao degustar a sobremesa com laranjas naturais, medito sobre essa estranha coceira na sola do pé, e que ataca gente do Japão medieval e gente de aqui e agora. Assim não dá pra não lembrar de Leminski quando nos avisa que “a viagem que não fiz, dói dentro de mim, como a raiz de uma árvore sem fim.”
Tchello d’Barros
www.tchello.art.br
O Trem da Poesia - Crônica de Tchello d'Barros
O Trem da Poesia
“Não há trem que eu não tomaria, não importa o lugar para onde vá.”
Edna St. Vincent Milay
Aí estamos nós, artistas de Blumenau, amantes da poesia, em plena praça do Biergartem, posando nesta foto para uma reportagem do Jornal de Santa Catarina, que contaria sobre nossa participação em uma edição no Congresso Brasileiro de Poesia, em Bento Gonçalves. Creio que seja 1.996 d. C., ano da graça de Nosso Senhor. A participação dos catarinenses deveu-se ao ator Antônio Leopolski, que era professor do NuTE – Núcleo de Teatro e Escola, no Teatro Carlos Gomes. Conheci-o quando interpretou alguns personagens na peça shakespeareana Macbeth, dirigida numa versão vanguardista e experimental pelo Alexandre Venera dos Santos.
Leopolski era também adepto do Teatro de Bonecos, e com seu Bando Neon, apresentava-se em diversos circuitos culturais com suas performances e intervenções. Para esse congresso convidou vários teatreiros para interpretar e declamar poemas de autores da cidade na programação daquela semana poética que ocorreria na serra gaúcha. Participaram ainda a cantora Nana Toledo e seu violão mágico, o artista visual Tadeu Bittencourt, com seus slides do projeto Projetando Poesia, a pintura performática do Alex também se fez presente, o jovem diretor de teatro Sílvio da Luz e ainda o poeta Marcelo Steil, que participaria declamando seus poemas. Este relator foi convidado também, para declamar poemas próprios e para realizar naquela cidade uma nova versão do Bombardeio Poético, intervenção urbana que realizei em Blumenau no dia do cinqüentenário das bombas atômicas. A ação constituiu-se em decolar num teco-teco no aeroporto Quero-quero - no caso, o mesmo monomotor do qual eu saltava de pára-quedas com o pessoal do Clube de Paraquedismo Vento Sul – e sobrevoar a cidade, despejando aviõezinhos de papel com meus poemas impressos. Para esta ação, convidei os poetas Dênnis Radünz e Marcelo Steil, que com seus respectivos poemas, ajudaram-me a bombardear Blumenau.
Depois de uma reunião com o poeta Lindolf Bell, que nos deu uma cópia do poema A Geração das Crianças Traídas, o qual lemos no evento posteriormente, lá se foi a animada trupe poética em direção ao Rio Grande do Sul, em ônibus “de linha” convencional, passando por Lages e depois trocando de carro em Caxias do Sul. Lá pelas sete da matina, chegávamos na rodoviária de Bento Gonçalves, onde para nossa surpresa, fomos recebidos pelo poeta Pedro Fontoura, declamador de poesia gauchesca, sendo que já foi nos saudando com uns versos improvisados e umas cuias quentes do mais tradicional chimarrão, antes de nos encaminhar ao alojamento.
Foi uma ótima semana de atividades literárias e artísticas, com vasta programação cultural, onde todos participamos com muitas declamações, leituras e performances nos vários espaços onde se realizavam os eventos, especialmente nas escolas e espaços culturais. É claro que “os catarinas”, como os gaudérios nos chamavam, fizeram bonito, participaram com entusiasmo das atividades e representaram muito bem nosso Estado barriga-verde. O evento era também um festival de sotaques, pois estavam lá poetas de diversos Estados e alguns de outros países, como França, Itália, Portugal, Cuba, Argentina e Uruguai. Como na época eu já expunha em Blumenau uma parte de minha incipiente produção em Poesia Visual, foi para mim uma alegria conhecer no evento dois ícones dessa modalidade de expressão poética experimental, o uruguaio Clemente Padin e o português Fernando Aguiar, com os quais mantenho correspondência até hoje. E por falar em Poesia Visual, não poderia faltar por lá o maior conhecedor do assunto no Brasil, o mineiro Hugo Pontes, que na ocasião realizava a curadoria de uma mostra internacional de poemas visuais. Lá eu conheceria ainda o escritor viajante Aírton Ortiz, que escreve livros com relatos de suas aventuras mundo afora. É o autor de Passagem para a índia, onde relata suas aventuras pelo país de Gandhi, viajando exclusivamente em trens.
Tudo corria muito bem, quando na sexta-feira, penúltimo dia, o poeta Ademir Bacca, coordenador do congresso, me disse que seria impossível realizar o Bombardeio Poético na manhã seguinte, como estava previsto, pois os técnicos do aeroporto da região informaram que um fenômeno climático caracterizado por nuvens baixas impediria que o avião fizesse o percurso combinado. Normalmente uma notícia dessas nos deixaria de baixo-astral, no entanto, depois de uma semanada de poesia, de confraternização com poetas dos mais variados naipes, de autênticas vivências culturais, nada poderia abalar a moral. Mas o fato é que lá estava eu com um saco repleto de poemas impressos. Sim, a poesia às vezes enche o saco! O fato é que na manhã seguinte, em pleno sábado, com a cidade movimentada, com eventos cívicos na praça da prefeitura, o Tadeu Bittencourt e eu fomos escalados para dar uma entrevista numa rádio, na rua central, sendo que o estúdio ficava no último andar do prédio. Entrevista dada, contamos depois aos radialistas que naquele horário deveria estar acontecendo o tal bombardeio, quando o Tadeu, com sua experiência de marinheiro, percebeu na janela que a direção do vento dava para a praça da prefeitura onde aconteciam os desfiles e havia uma multidão na rua. Então o pessoal da rádio liberou para que fôssemos ao teto do prédio e de lá fomos soltando os poemas, que ao sabor do minuano, chegavam até o povo na rua central. De início pensavam tratar-se de panfletos políticos, no entanto, ato seguinte havia mesmo uns grupos que disputavam os poemas que lhes vinham chegando pelo ar.
Bem, essa intervenção não foi assim aquele bombardeio todo, como previsto no projeto original, entretanto, de uma maneira improvisada e meio que subversiva até, fizemos com que a poesia chegasse até as pessoas. A atividade causou um certo burburinho, o que chamou a atenção de uma equipe da TV Futura que estava na cidade, e por conta disso acabei sendo convidado para a gravação de uma matéria onde três poetas brasileiros e três estranjeiros fariam declamações de poemas aos passageiros do trem Maria Fumaça, um dos mais tradicionais passeios turísticos de Bento Gonçalves. Como ainda havia muitos poemas impressos, tratei de levá-los também, e assim que a Maria Fumaça se pôs em marcha, tratamos de invadir cada vagão, onde cada um dos cerca de quatrocentos turistas recebeu em mãos um poema de meu livro Olho Nu ou do recém lançado Palavrório. Como nesse trajeto estavam programadas algumas atrações da cultura gauchesca dentro dos vagões, os passageiros pensavam que os tais poemas estavam inseridos nessa programação, onde acabei fazendo papel de gaúcho, sem querer, um gaudério de araque, sem sotaque nem bombacha, ainda que neto do maestro gaúcho Frederico Klein. De qualquer forma, a panfletagem literária serviu de preparação para o que viria a seguir. O grupo entrava em cada vagão e após uma breve apresentação iniciava-se um sarau de poesia, onde os poetasse revezavam nas declamações. Ao final de cada vagão, nos despedia-mos sob aplausos acalorados e muitos agradecimentos.
Ao final de nossas tertúlias improvisadas, depois de gravações e entrevistas, ficamos no último vagão, em assentos reservados para nós e seguimos viagem, agora na condição de passageiros normais, digamos assim, no famoso Trem do Vinho, como também é conhecido. Nos vinte e três km do trajeto, passamos por diversas estações, que eram paradas estratégicas, onde os passageiros desciam para degustar produtos da culinária regional como queijos e salames, sempre bebericando vinhos e espumantes. Interessante que à cada estação o povo estava mais alegre! Numa delas houve apresentação de um grupo de jovens senhoritas, com trajes típicos italianos, que dançaram uma coreografia da cultura de seus antepassados colonizadores, uma simpática forma de preservar as tradições locais, assim como existem os grupos folclóricos alemães, em Blumenau. Noutra estação, entre um e outro copo de cabernet, descobrimos uma fonte dos desejos, dessas em que se faz um pedido e, à maneira da Fontana Di Trevi, em Roma, joga-se por sobre o ombro uma moeda. Voltar ali foi o desejo pedido, que num futuro não muito distante, foi plenamente atendido. E seguimos viagem, passando pelos arredores das cidades de Carlos Barbosa e Garibaldi, apreciando as belezas dos pampas, com seus verdes cor de erva-mate, capões e pradarias do Vale dos Vinhedos, como é conhecida a região.
Mas as apresentações culturais não aconteciam apenas nas estações. Dentro dos vagões, em pleno movimento, a cada rodada de vinho, diversos artistas apresentavam-se. Havia desde músicos apresentando a típica canção nativista até poetas declamadores dali da região, que improvisavam no ato suas sextilhas rimadas, semelhantes aos repentistas nordestinos. Havia também um esquete com teatro de comédia e mais tarde um grupo de dança de Tarantela, onde os dançarinos após uma demonstração, convidavam os passageiros para dançar com eles. A moça que me tirou para dançar era tão linda, mas tão linda, que cheguei a pensar mais tarde que fosse a Giselle Bündchen antes de ficar famosa. Depois descobri que a ubermodel vivia em outra cidade.
Agora degustando uma taça de chardonnay, contemplava o céu azul daquelas querências, no agradável e leve sacolejo ritmado da Maria Fumaça. Estava nesses devaneios quando lembrei que não cheguei a viajar no trem de Blumenau. Mas não era exatamente a primeira vez que andava de trem, quando criancinha teria viajado no trajeto de Piratuba à Marcelino Ramos, percurso que hoje também existe nos mesmos moldes turísticos do trem em que me encontrava. E também havia percorrido pequenos trechos nos arredores de Lages, numa locomotiva da RFFSA, um trem militar do 1º Batalhão Ferroviário de Engenharia Militar, onde prestei o serviço militar na condição de voluntário. E o que o soldado 884 do sexto pelotão estava fazendo ali? Ora, descarregando os vagões com as sacas de cimento, onde cada uma pesava cinquenta quilos! Bah, prefiro o romantismo do trem da serra gaúcha, tchê!
Enfim, a última parada foi na fábrica Tramontina, onde os turistas desceram para visitar o show-room da tradicional empresa. Optei por ficar no vagão, curtindo os efeitos da equação poético-etílica, quando para minha surpresa, as moçoilas da apresentação de dança, pensando não haver ninguém nos vagões, e foram para o outro lado do trem, e com seus vestidos de trajes típicos, na maior farra, dançavam um animado Can-can! Mais tarde lembraria com nostalgia dessa Maria Fumaça. Foi no trajeto do Canal da Mancha, a bordo do ultra moderno Eurostar, onde sob uma velocidade de 150 km/h em poucas horas se faz o trajeto Londres-Paris. Na ocasião, uma funcionária tentava me vender um suco de laranja no vagão claustrofóbico, abaixo do nível do mar. Naquele momento trocaria toda aquela modernidade européia pelo romantismo nostálgico, o bom vinho, os poetas e o sorriso de uma musa naquele dia distante, no trem da poesia.
Tchello d’Barros
www.tchello.art.br
“Não há trem que eu não tomaria, não importa o lugar para onde vá.”
Edna St. Vincent Milay
Aí estamos nós, artistas de Blumenau, amantes da poesia, em plena praça do Biergartem, posando nesta foto para uma reportagem do Jornal de Santa Catarina, que contaria sobre nossa participação em uma edição no Congresso Brasileiro de Poesia, em Bento Gonçalves. Creio que seja 1.996 d. C., ano da graça de Nosso Senhor. A participação dos catarinenses deveu-se ao ator Antônio Leopolski, que era professor do NuTE – Núcleo de Teatro e Escola, no Teatro Carlos Gomes. Conheci-o quando interpretou alguns personagens na peça shakespeareana Macbeth, dirigida numa versão vanguardista e experimental pelo Alexandre Venera dos Santos.
Leopolski era também adepto do Teatro de Bonecos, e com seu Bando Neon, apresentava-se em diversos circuitos culturais com suas performances e intervenções. Para esse congresso convidou vários teatreiros para interpretar e declamar poemas de autores da cidade na programação daquela semana poética que ocorreria na serra gaúcha. Participaram ainda a cantora Nana Toledo e seu violão mágico, o artista visual Tadeu Bittencourt, com seus slides do projeto Projetando Poesia, a pintura performática do Alex também se fez presente, o jovem diretor de teatro Sílvio da Luz e ainda o poeta Marcelo Steil, que participaria declamando seus poemas. Este relator foi convidado também, para declamar poemas próprios e para realizar naquela cidade uma nova versão do Bombardeio Poético, intervenção urbana que realizei em Blumenau no dia do cinqüentenário das bombas atômicas. A ação constituiu-se em decolar num teco-teco no aeroporto Quero-quero - no caso, o mesmo monomotor do qual eu saltava de pára-quedas com o pessoal do Clube de Paraquedismo Vento Sul – e sobrevoar a cidade, despejando aviõezinhos de papel com meus poemas impressos. Para esta ação, convidei os poetas Dênnis Radünz e Marcelo Steil, que com seus respectivos poemas, ajudaram-me a bombardear Blumenau.
Depois de uma reunião com o poeta Lindolf Bell, que nos deu uma cópia do poema A Geração das Crianças Traídas, o qual lemos no evento posteriormente, lá se foi a animada trupe poética em direção ao Rio Grande do Sul, em ônibus “de linha” convencional, passando por Lages e depois trocando de carro em Caxias do Sul. Lá pelas sete da matina, chegávamos na rodoviária de Bento Gonçalves, onde para nossa surpresa, fomos recebidos pelo poeta Pedro Fontoura, declamador de poesia gauchesca, sendo que já foi nos saudando com uns versos improvisados e umas cuias quentes do mais tradicional chimarrão, antes de nos encaminhar ao alojamento.
Foi uma ótima semana de atividades literárias e artísticas, com vasta programação cultural, onde todos participamos com muitas declamações, leituras e performances nos vários espaços onde se realizavam os eventos, especialmente nas escolas e espaços culturais. É claro que “os catarinas”, como os gaudérios nos chamavam, fizeram bonito, participaram com entusiasmo das atividades e representaram muito bem nosso Estado barriga-verde. O evento era também um festival de sotaques, pois estavam lá poetas de diversos Estados e alguns de outros países, como França, Itália, Portugal, Cuba, Argentina e Uruguai. Como na época eu já expunha em Blumenau uma parte de minha incipiente produção em Poesia Visual, foi para mim uma alegria conhecer no evento dois ícones dessa modalidade de expressão poética experimental, o uruguaio Clemente Padin e o português Fernando Aguiar, com os quais mantenho correspondência até hoje. E por falar em Poesia Visual, não poderia faltar por lá o maior conhecedor do assunto no Brasil, o mineiro Hugo Pontes, que na ocasião realizava a curadoria de uma mostra internacional de poemas visuais. Lá eu conheceria ainda o escritor viajante Aírton Ortiz, que escreve livros com relatos de suas aventuras mundo afora. É o autor de Passagem para a índia, onde relata suas aventuras pelo país de Gandhi, viajando exclusivamente em trens.
Tudo corria muito bem, quando na sexta-feira, penúltimo dia, o poeta Ademir Bacca, coordenador do congresso, me disse que seria impossível realizar o Bombardeio Poético na manhã seguinte, como estava previsto, pois os técnicos do aeroporto da região informaram que um fenômeno climático caracterizado por nuvens baixas impediria que o avião fizesse o percurso combinado. Normalmente uma notícia dessas nos deixaria de baixo-astral, no entanto, depois de uma semanada de poesia, de confraternização com poetas dos mais variados naipes, de autênticas vivências culturais, nada poderia abalar a moral. Mas o fato é que lá estava eu com um saco repleto de poemas impressos. Sim, a poesia às vezes enche o saco! O fato é que na manhã seguinte, em pleno sábado, com a cidade movimentada, com eventos cívicos na praça da prefeitura, o Tadeu Bittencourt e eu fomos escalados para dar uma entrevista numa rádio, na rua central, sendo que o estúdio ficava no último andar do prédio. Entrevista dada, contamos depois aos radialistas que naquele horário deveria estar acontecendo o tal bombardeio, quando o Tadeu, com sua experiência de marinheiro, percebeu na janela que a direção do vento dava para a praça da prefeitura onde aconteciam os desfiles e havia uma multidão na rua. Então o pessoal da rádio liberou para que fôssemos ao teto do prédio e de lá fomos soltando os poemas, que ao sabor do minuano, chegavam até o povo na rua central. De início pensavam tratar-se de panfletos políticos, no entanto, ato seguinte havia mesmo uns grupos que disputavam os poemas que lhes vinham chegando pelo ar.
Bem, essa intervenção não foi assim aquele bombardeio todo, como previsto no projeto original, entretanto, de uma maneira improvisada e meio que subversiva até, fizemos com que a poesia chegasse até as pessoas. A atividade causou um certo burburinho, o que chamou a atenção de uma equipe da TV Futura que estava na cidade, e por conta disso acabei sendo convidado para a gravação de uma matéria onde três poetas brasileiros e três estranjeiros fariam declamações de poemas aos passageiros do trem Maria Fumaça, um dos mais tradicionais passeios turísticos de Bento Gonçalves. Como ainda havia muitos poemas impressos, tratei de levá-los também, e assim que a Maria Fumaça se pôs em marcha, tratamos de invadir cada vagão, onde cada um dos cerca de quatrocentos turistas recebeu em mãos um poema de meu livro Olho Nu ou do recém lançado Palavrório. Como nesse trajeto estavam programadas algumas atrações da cultura gauchesca dentro dos vagões, os passageiros pensavam que os tais poemas estavam inseridos nessa programação, onde acabei fazendo papel de gaúcho, sem querer, um gaudério de araque, sem sotaque nem bombacha, ainda que neto do maestro gaúcho Frederico Klein. De qualquer forma, a panfletagem literária serviu de preparação para o que viria a seguir. O grupo entrava em cada vagão e após uma breve apresentação iniciava-se um sarau de poesia, onde os poetasse revezavam nas declamações. Ao final de cada vagão, nos despedia-mos sob aplausos acalorados e muitos agradecimentos.
Ao final de nossas tertúlias improvisadas, depois de gravações e entrevistas, ficamos no último vagão, em assentos reservados para nós e seguimos viagem, agora na condição de passageiros normais, digamos assim, no famoso Trem do Vinho, como também é conhecido. Nos vinte e três km do trajeto, passamos por diversas estações, que eram paradas estratégicas, onde os passageiros desciam para degustar produtos da culinária regional como queijos e salames, sempre bebericando vinhos e espumantes. Interessante que à cada estação o povo estava mais alegre! Numa delas houve apresentação de um grupo de jovens senhoritas, com trajes típicos italianos, que dançaram uma coreografia da cultura de seus antepassados colonizadores, uma simpática forma de preservar as tradições locais, assim como existem os grupos folclóricos alemães, em Blumenau. Noutra estação, entre um e outro copo de cabernet, descobrimos uma fonte dos desejos, dessas em que se faz um pedido e, à maneira da Fontana Di Trevi, em Roma, joga-se por sobre o ombro uma moeda. Voltar ali foi o desejo pedido, que num futuro não muito distante, foi plenamente atendido. E seguimos viagem, passando pelos arredores das cidades de Carlos Barbosa e Garibaldi, apreciando as belezas dos pampas, com seus verdes cor de erva-mate, capões e pradarias do Vale dos Vinhedos, como é conhecida a região.
Mas as apresentações culturais não aconteciam apenas nas estações. Dentro dos vagões, em pleno movimento, a cada rodada de vinho, diversos artistas apresentavam-se. Havia desde músicos apresentando a típica canção nativista até poetas declamadores dali da região, que improvisavam no ato suas sextilhas rimadas, semelhantes aos repentistas nordestinos. Havia também um esquete com teatro de comédia e mais tarde um grupo de dança de Tarantela, onde os dançarinos após uma demonstração, convidavam os passageiros para dançar com eles. A moça que me tirou para dançar era tão linda, mas tão linda, que cheguei a pensar mais tarde que fosse a Giselle Bündchen antes de ficar famosa. Depois descobri que a ubermodel vivia em outra cidade.
Agora degustando uma taça de chardonnay, contemplava o céu azul daquelas querências, no agradável e leve sacolejo ritmado da Maria Fumaça. Estava nesses devaneios quando lembrei que não cheguei a viajar no trem de Blumenau. Mas não era exatamente a primeira vez que andava de trem, quando criancinha teria viajado no trajeto de Piratuba à Marcelino Ramos, percurso que hoje também existe nos mesmos moldes turísticos do trem em que me encontrava. E também havia percorrido pequenos trechos nos arredores de Lages, numa locomotiva da RFFSA, um trem militar do 1º Batalhão Ferroviário de Engenharia Militar, onde prestei o serviço militar na condição de voluntário. E o que o soldado 884 do sexto pelotão estava fazendo ali? Ora, descarregando os vagões com as sacas de cimento, onde cada uma pesava cinquenta quilos! Bah, prefiro o romantismo do trem da serra gaúcha, tchê!
Enfim, a última parada foi na fábrica Tramontina, onde os turistas desceram para visitar o show-room da tradicional empresa. Optei por ficar no vagão, curtindo os efeitos da equação poético-etílica, quando para minha surpresa, as moçoilas da apresentação de dança, pensando não haver ninguém nos vagões, e foram para o outro lado do trem, e com seus vestidos de trajes típicos, na maior farra, dançavam um animado Can-can! Mais tarde lembraria com nostalgia dessa Maria Fumaça. Foi no trajeto do Canal da Mancha, a bordo do ultra moderno Eurostar, onde sob uma velocidade de 150 km/h em poucas horas se faz o trajeto Londres-Paris. Na ocasião, uma funcionária tentava me vender um suco de laranja no vagão claustrofóbico, abaixo do nível do mar. Naquele momento trocaria toda aquela modernidade européia pelo romantismo nostálgico, o bom vinho, os poetas e o sorriso de uma musa naquele dia distante, no trem da poesia.
Tchello d’Barros
www.tchello.art.br
domingo, 22 de março de 2009
Um pretérito perfeito para um debate contemporâneo
Um pretérito perfeito para um debate contemporâneo
por Tchello d’Barros*
O diretor carioca Gustavo Pizzi veio pessoalmente para Maceió apresentar seu filme Pretérito Perfeito, na programação cultural do Cine Sesi Pajuçara, sendo que ao final da sessão especial participou de um debate com a platéia, que contou com a presença de pessoas da área cultural, curiosos e até mesmo a participação de Carlito Lima, fundador da Academia Alagoana de Boemia.
O documentário apresenta o antigo e famoso prostíbulo carioca Casa Rosa, hoje um centro cultural no bairro Laranjeiras, sendo revisitado por antigos freqüentadores, boêmios saudosos, e mesmo figuras como o cartunista LAN, que confessou ter tomado um porre e dormido por lá mesmo, e o roqueiro Lobão, que disse ter tido lá sua iniciação sexual, além de tomar um guaraná...
Houve quem reclamasse que faltou ‘mulher pelada’ no filme, já que se trata de um famoso puteiro de outrora, mas isso foi, digamos, compensado com os depoimentos tórridos de Dona Ivanilda, uma prostituta de 65 anos, ainda na ativa, e que lá iniciou sua carreira, quando ainda era menor de idade. Picante!
Mas nos relatos dos participantes, fica-se sabendo que o prostíbulo – que funcionou até 1991 – não era ‘uma zona’, era um local bonito e bem decorado, com bebidas importadas, jantares especiais, as moças eram educadas, elegantes, bem-vestidas e havia um ambiente de sedução e bom-gosto, sendo que até mesmo orquestras se apresentavam no local. Bem, nostalgias à parte, o fato é que em vários depoimentos, soube-se que o local era freqüentado pelos poderosos da época, em especial a classe política, que lá se encontrava não apenas para gastar um pouco dos lucros, mas também para alinhavar conchavos e conluios. É o poder e a política como temas transversais num filme sobre putaria.
Um documentário assim, sendo exibido em Maceió, nos aponta para alguns links, considerando-se os temas transversais supra-citados. A primeira referência, sem dúvida é o filme ficcional Amor, Estranho Amor, estrelado por Xuxa, Matilde Mastrangi e a blumenauense Vera Fisher, em performances – e formas físicas – que fizeram desse filme um clássico, hoje sumido das locadoras mas que é uma festa entre os adeptos da pirataria de CDs. Ocorre que essa mesma temática, poder e política num ambiente de baixo calão, digamos assim, aparece aí também, só que desta vez, num puteiro famoso em São Paulo, onde ali também os poderosos da época se encontravam para, entre outras atividades, decidir os destinos do país.
Pretérito Perfeito dialoga também com uma obra literária maceioense, alagoana, brasileira e traduzida em várias línguas, o livro Ninho de Cobras, obra fundamental para se entender a alagoanidade, uma das mais instigantes obras de prosa poética em nosso idioma. Bem, o fato é que nesse livro do imortal Lêdo Ivo, ocorrem encontros de políticos num prostíbulo da capital, onde ocorriam orgias, bebericação e comilanças nas madrugadas afora, e onde as urdiduras e tramas da policalha da época definiam alguns destinos políticos daqueles senhores afortunados de então. Mas é apenas ficção, heim!
Se trouxemos o assunto para um âmbito local, lancemos então um olhar mais contemporâneo sobre o mesmo e fatalmente vamos nos encontrar com outra obra literária, o livro Pornô Política do também cineasta e hoje cronista polêmico Arnaldo Jabor. Ora, se outrora ele dizia num de seus filmes que toda nudez será castigada, nesse livro ficamos sabendo que agora está tudo é escancarado mesmo, já que várias crônicas, ainda que de viés ficcional, remetem aos escândalos do chamado Mensalão, amplamente divulgado em mídia nacional, sendo que em diversas matérias soube-se das farras e orgias com prostitutas de luxo que vinham de avião especialmente para atender os distintos parlamentares, congressistas e políticos de todos os naipes. Baixo calão com políticos de alto escalão. E quem paga tudo isso?
Talvez o que de fato esteja latente entre os fotogramas de Pretérito Perfeito é que essa mistura de putaria com poder, seja um mal constante e extemporâneo em todos os cantos do país, um reflexo de nossa condição de terceiro-mundistas dos ‘tristes trópicos’, onde ainda não aprendemos direito a meter um bom voto na fresta da urna, ainda não sabemos direito onde enfiar o dedo nessas eleições digitais. Ainda não fomos plenamente desvirginados para os albores da democracia. Ainda estamos por aprender a gozar plenamente de nossos direitos civis. Mas, bem, se já existe gente saindo de casa pra ir ao cinema pra ver um documentário, é sinal que as coisas estão mudando e se encaminhando, como num bom livro ou bom filme, para um final que esperamos que seja cada vez mais feliz.
* Tchello d’Barros é escritor ou artista visual, depende o dia.
Maceió, março de 2009.
por Tchello d’Barros*
O diretor carioca Gustavo Pizzi veio pessoalmente para Maceió apresentar seu filme Pretérito Perfeito, na programação cultural do Cine Sesi Pajuçara, sendo que ao final da sessão especial participou de um debate com a platéia, que contou com a presença de pessoas da área cultural, curiosos e até mesmo a participação de Carlito Lima, fundador da Academia Alagoana de Boemia.
O documentário apresenta o antigo e famoso prostíbulo carioca Casa Rosa, hoje um centro cultural no bairro Laranjeiras, sendo revisitado por antigos freqüentadores, boêmios saudosos, e mesmo figuras como o cartunista LAN, que confessou ter tomado um porre e dormido por lá mesmo, e o roqueiro Lobão, que disse ter tido lá sua iniciação sexual, além de tomar um guaraná...
Houve quem reclamasse que faltou ‘mulher pelada’ no filme, já que se trata de um famoso puteiro de outrora, mas isso foi, digamos, compensado com os depoimentos tórridos de Dona Ivanilda, uma prostituta de 65 anos, ainda na ativa, e que lá iniciou sua carreira, quando ainda era menor de idade. Picante!
Mas nos relatos dos participantes, fica-se sabendo que o prostíbulo – que funcionou até 1991 – não era ‘uma zona’, era um local bonito e bem decorado, com bebidas importadas, jantares especiais, as moças eram educadas, elegantes, bem-vestidas e havia um ambiente de sedução e bom-gosto, sendo que até mesmo orquestras se apresentavam no local. Bem, nostalgias à parte, o fato é que em vários depoimentos, soube-se que o local era freqüentado pelos poderosos da época, em especial a classe política, que lá se encontrava não apenas para gastar um pouco dos lucros, mas também para alinhavar conchavos e conluios. É o poder e a política como temas transversais num filme sobre putaria.
Um documentário assim, sendo exibido em Maceió, nos aponta para alguns links, considerando-se os temas transversais supra-citados. A primeira referência, sem dúvida é o filme ficcional Amor, Estranho Amor, estrelado por Xuxa, Matilde Mastrangi e a blumenauense Vera Fisher, em performances – e formas físicas – que fizeram desse filme um clássico, hoje sumido das locadoras mas que é uma festa entre os adeptos da pirataria de CDs. Ocorre que essa mesma temática, poder e política num ambiente de baixo calão, digamos assim, aparece aí também, só que desta vez, num puteiro famoso em São Paulo, onde ali também os poderosos da época se encontravam para, entre outras atividades, decidir os destinos do país.
Pretérito Perfeito dialoga também com uma obra literária maceioense, alagoana, brasileira e traduzida em várias línguas, o livro Ninho de Cobras, obra fundamental para se entender a alagoanidade, uma das mais instigantes obras de prosa poética em nosso idioma. Bem, o fato é que nesse livro do imortal Lêdo Ivo, ocorrem encontros de políticos num prostíbulo da capital, onde ocorriam orgias, bebericação e comilanças nas madrugadas afora, e onde as urdiduras e tramas da policalha da época definiam alguns destinos políticos daqueles senhores afortunados de então. Mas é apenas ficção, heim!
Se trouxemos o assunto para um âmbito local, lancemos então um olhar mais contemporâneo sobre o mesmo e fatalmente vamos nos encontrar com outra obra literária, o livro Pornô Política do também cineasta e hoje cronista polêmico Arnaldo Jabor. Ora, se outrora ele dizia num de seus filmes que toda nudez será castigada, nesse livro ficamos sabendo que agora está tudo é escancarado mesmo, já que várias crônicas, ainda que de viés ficcional, remetem aos escândalos do chamado Mensalão, amplamente divulgado em mídia nacional, sendo que em diversas matérias soube-se das farras e orgias com prostitutas de luxo que vinham de avião especialmente para atender os distintos parlamentares, congressistas e políticos de todos os naipes. Baixo calão com políticos de alto escalão. E quem paga tudo isso?
Talvez o que de fato esteja latente entre os fotogramas de Pretérito Perfeito é que essa mistura de putaria com poder, seja um mal constante e extemporâneo em todos os cantos do país, um reflexo de nossa condição de terceiro-mundistas dos ‘tristes trópicos’, onde ainda não aprendemos direito a meter um bom voto na fresta da urna, ainda não sabemos direito onde enfiar o dedo nessas eleições digitais. Ainda não fomos plenamente desvirginados para os albores da democracia. Ainda estamos por aprender a gozar plenamente de nossos direitos civis. Mas, bem, se já existe gente saindo de casa pra ir ao cinema pra ver um documentário, é sinal que as coisas estão mudando e se encaminhando, como num bom livro ou bom filme, para um final que esperamos que seja cada vez mais feliz.
* Tchello d’Barros é escritor ou artista visual, depende o dia.
Maceió, março de 2009.
sexta-feira, 6 de abril de 2007
010 - Conto "A FACE FACEIRA"
"A FACE FACEIRA"
Tchello d’Barros
Não vou dizer que ela é bonita. Prefiro dizer que era bonita, como se fosse no passado ou como se ela já não estivesse entre nós, tanto faz. Vez em quando mudava o corte de seus cabelos louros, muito finos, cheirosos, cor de corda crua. Rapunzel pós-moderna. Gostava de vê-los ao sol do fim de tarde, quando adquiriam uma tonalidade de ouro. Mas a lisura de sua face eu preferia ver pela manhã, cuja luminosidade denunciava um cálido brilho de mármore, textura de porcelana, tez de areia clara. Nas maçãs do rosto, nuas nuances de pêssego. Gostava de passear o olhar demoradamente pela pele de seu rosto, sobrevoar aquele semblante sublime, que ora revelava uma pequena pinta, aqui ou ali, ora apresentava relevos e declives, como sua testa levemente arredondada, quase sempre escondida pelas douradas madeixas, testa que descia para um nariz equilibrado, elegante. Um pouco mais ao sul, aquele par de lábios naturalmente rubros, duas pétalas úmidas de tulipas escarlates, cujos breves sorrisos tímidos, revelavam um colar de pérolas e acentuavam o raro róseo das bochechas. Pousava minha atenção sobre aqueles lábios túmidos, tépidos, que mesmo silentes pareciam sussurrar segredos. Vistos de lado, um morango orvalhado. De frente, um coração dobrado. Um pouco mais ao sul, o queixo de curva suave, cujas linhas de contorno se prolongavam até encontrar as pequenas orelhas, vigiadas por brincos discretos, que se escondiam entre aqueles cabelos que emolduravam sua face de esfinge. Mas é preciso falar de como eu acompanhava o desenho de suas sombrancelhas, de tons castanhos, simetricamente arqueadas, afinando nas pontas, com os fios perfilados como jardins próximos ao oásis de seus olhos. Deles, vou revelar apenas que aquele par de mandalas fugazes eram guarnecidos por um conjunto de cílios arredondados, que ao piscar das pálpebras pareciam duas pequenas folhas de palmeira a cobrir aqueles olhos inocentes, indecentes, incandescentes. Conforme a luz do ambiente, era possível notar pequenas mudanças na cor da íris, cujos detalhes mínimos mais pareciam tintas na paleta de um pintor que misturasse tons entre o jade e o esmeralda, com breves pinceladas de azul e prata. Quando menstruava, as pupilas diminuíam e eles ficavam ainda mais claros, mais luminosos. Duas certezas me confidenciou: sua inabalável crença no amor e seu amor somente por mulheres.
Tchello d’Barros
Não vou dizer que ela é bonita. Prefiro dizer que era bonita, como se fosse no passado ou como se ela já não estivesse entre nós, tanto faz. Vez em quando mudava o corte de seus cabelos louros, muito finos, cheirosos, cor de corda crua. Rapunzel pós-moderna. Gostava de vê-los ao sol do fim de tarde, quando adquiriam uma tonalidade de ouro. Mas a lisura de sua face eu preferia ver pela manhã, cuja luminosidade denunciava um cálido brilho de mármore, textura de porcelana, tez de areia clara. Nas maçãs do rosto, nuas nuances de pêssego. Gostava de passear o olhar demoradamente pela pele de seu rosto, sobrevoar aquele semblante sublime, que ora revelava uma pequena pinta, aqui ou ali, ora apresentava relevos e declives, como sua testa levemente arredondada, quase sempre escondida pelas douradas madeixas, testa que descia para um nariz equilibrado, elegante. Um pouco mais ao sul, aquele par de lábios naturalmente rubros, duas pétalas úmidas de tulipas escarlates, cujos breves sorrisos tímidos, revelavam um colar de pérolas e acentuavam o raro róseo das bochechas. Pousava minha atenção sobre aqueles lábios túmidos, tépidos, que mesmo silentes pareciam sussurrar segredos. Vistos de lado, um morango orvalhado. De frente, um coração dobrado. Um pouco mais ao sul, o queixo de curva suave, cujas linhas de contorno se prolongavam até encontrar as pequenas orelhas, vigiadas por brincos discretos, que se escondiam entre aqueles cabelos que emolduravam sua face de esfinge. Mas é preciso falar de como eu acompanhava o desenho de suas sombrancelhas, de tons castanhos, simetricamente arqueadas, afinando nas pontas, com os fios perfilados como jardins próximos ao oásis de seus olhos. Deles, vou revelar apenas que aquele par de mandalas fugazes eram guarnecidos por um conjunto de cílios arredondados, que ao piscar das pálpebras pareciam duas pequenas folhas de palmeira a cobrir aqueles olhos inocentes, indecentes, incandescentes. Conforme a luz do ambiente, era possível notar pequenas mudanças na cor da íris, cujos detalhes mínimos mais pareciam tintas na paleta de um pintor que misturasse tons entre o jade e o esmeralda, com breves pinceladas de azul e prata. Quando menstruava, as pupilas diminuíam e eles ficavam ainda mais claros, mais luminosos. Duas certezas me confidenciou: sua inabalável crença no amor e seu amor somente por mulheres.
009 - Conto "M" E "H" NO 609
"M" E "H" NO 609
Tchello d'Barros
São Paulo é uma cidade grande, muito grande. M e H conheceram-se numa dessas situações inesperadas, que talvez por comodidade convencionamos chamar de acaso. M, há tempos que estava acostumada com a rotina do metrô, meia hora para ir e outra longa meia hora para voltar. Para suportar melhor esse limbo de tempo inútil, lia revistas de fotonovelas, que adquiria numa loja de livros usados, próxima à estação da Praça da Sé. A monotonia desse trajeto só era quebrada lá de vez em quando, com alguma paquera, pelo fuzuê com algum trombadinha ou algum ator fazendo sua performance e passando o chapéu.
Aquela manhã de sábado com garoa não prometia muito. Vagão cheio, M incomodou-se um pouco por ter que ficar em pé, e cavalheirismo, como se sabe, não anda muito na moda. Incomodou-se um pouco mais quando, no frenesi das pessoas que apressadamente entravam e saíam do vagão, um sujeito passou por trás dela, encostando-se, inevitavelmente. Este momento deve ter durado apenas um segundo, mas foi o suficiente para ela sentir um hálito de hortelã, e ele percebeu a fragrância de alfazema nos cabelos dela. Quando ele se afastou, ela olhou de soslaio, para identificar o atrevido, ao tempo que H, também discretamente, observava sua silhueta bem desenhada pelo reflexo da janela. Ato seguinte, um assento que ficou vago permitiu que a vida voltasse ao normal no escapismo de mais algumas páginas da fotonovela.
Desceu na estação de sempre e depois de mais uma manhã rotineira, ao meio-dia em ponto estava livre, seu fim-de-semana começou com o fim da garoa. Logo ela estava zanzando pelas barracas da feirinha da Liberdade, onde adquiriu umas bonequinhas de origami. O almoço se resumiu à alguns camarões no palito, assim, almoçava caminhando, observando os artesanatos e antigüidades espalhados pelas banquinhas. Naquele vai-e-vem de tanta gente, julgou ter visto o sujeito do metrô, próximo à uns quadros de paisagens japonesas que um pintor apresentava no chão de uma pracinha. Tímida do tipo ousada, aproximou-se para ter certeza, mas não viu mais o vulto, certamente era outra pessoa.
Lembrou-se que precisava renovar o estoque de suas revistas antigas de fotonovelas, e lá foi ela em direção ao sebo. Ao chegar foi diretamente à sala das tais revistas, onde levou um susto, pois ninguém menos que H estava ali, escolhendo alguns exemplares de bolsi-livros de faroeste, sua única distração literária. M imaginou inicialmente que H estivesse lhe seguindo, mas logo concluiu que isso não poderia ser, pois quando ela chegou ele já se encontrava no local. Depois pensou em coincidência, em destino, essas coisas que não entendemos muito bem, e logo já estava fantasiando que fosse algum investigador contratado, um tipo de detetive. Saiu de tais devaneios quando percebeu que ele já não estava mais naquela sala, então tratou de escolher alguns exemplares de revistas para sua coleção. O segundo susto foi na hora de pagar, pois ambos chegaram juntos ao balcão, o que fez com que o balconista perguntasse o típico 'quem está na vez?', o que inicialmente causou um certo constrangimento para ambos, mas foi a ocasião para uma breve troca de olhares e o esboço de um sorriso. O fato de H ter permitido que M pagasse primeiro, foi a senha para continuarem conversando e o manuseio do pagamento permitiu que ambos vissem que nenhum dos dois estava usando aliança.
As recentes aquisições permitiram que a conversa se prolongasse num café próximo dali. Esgotado o assunto das preferências literárias, trataram de puxar outros temas corriqueiros, amenidades bem triviais, apenas umas desculpas para poderem continuar se olhando, um adentrando o semblante do outro, tentando desvendar camadas de personalidades e nuances dessa atração inusitada. Esse mesmo ardente encontro de olhares, sequer permitiu que falassem sobre relacionamentos, fossem anteriores ou atuais, profissões ou endereços, esses itens que definem tanta gente. Eram apenas dois intensos olhares cruzados, que em seguida receberam a cumplicidade de duas mãos que se tocavam de leve, no início, e assim não demorou para que um certo par de lábios ávidos também se encontrassem. A vida naquele momento era apenas um sabor de hortelã e um suave aroma de alfazema, naquela esquina da megalópole.
Não se conheciam, não queriam se conhecer, mas desejavam se entregar. Talvez essa substância abstrata que chamamos de natureza humana, explique o fato de que dentro de poucas horas, já no número 609 de um hotel da rua Ipiranga, o par estivesse resfolegando num faiscante entrelaçamento com fusão de corpo e alma. O caos e o céu ao mesmo tempo. Depois, quando os corações foram desacelerando, o suor foi secando e os instintos permitiram que alguma lucidez se instalasse no recinto, começaram a conversar e, conversaram demoradamente, outro prazer que descobriram assim, sem querer. Concluíram que esse enigma, que as pessoas chamam de amor, pode acontecer assim, de repente, numa nublada tarde de sábado, no labirinto da gigantesca cidade. Ao saírem do hotel, ninguém sabia nome, idade, telefone, e-mail ou o que quer que fosse sobre o outro, esses ítens que identificam muita gente, o que não impediu de combinarem se encontrar no saguão do mesmo hotel, no mesmo horário, uma semana depois.
E passados sete dias, na tarde paulistana, desta vez ensolarada, lá estavam M e H novamente, tentando ser discretos na recepção do hotel, mas mal disfarçando a gana de avançar um sobre o outro, o que aconteceu de fato, logo que fecharam a porta do mesmo quarto 609. Pura selvageria. Frisson e êxtase. Volúpia e lascívia. Concupiscência e atração. Luxúria e lúbricas intimidades. Umidade e fricção. Ou o que muitos preferem resumir como tesão. Apagado o primeiro de muitos incêndios, M percebeu então que H havia trazido champanhe com morangos, e H pode enfim também notar os detalhes da lingerie provocante que M escolheu para o novo encontro. Algumas labaredas mais tarde, fruíram daquele prazer de conversar, de poder falar das sensações, dos sentimentos e das percepções desses momentos incandescentes. E falavam da saudade, e dos desejos, e dos medos, e das vontades, e das fantasias, e de todo um outro labirinto, o das afetividades que se entrelaçavam nas relações e no relacionamento. Antes de se despedir, H notou entre os pertences de M uma pequena réplica de espada japonesa, dessas para abrir envelopes, sinal de que ela devia ter passado novamente pela feirinha oriental. Já M, percebeu que H havia adquirido mais alguns livrinhos com histórias de bang-bang. Mas ninguém quis comentar nada, nada de observações, nada de perguntas. Manter algum mistério era muito mais excitante.
E assim se despediram, e assim se reencontraram, e assim foram repetindo seus encontros semanais, pontuados pela entrega total em suas experiências, preservadas por segredos mútuos, quase como se suas vidas particulares nem existissem, como se a vida real acontecesse apenas naquele idílico quarto 609. E mais não precisava. E como é próprio dessas raras uniões onde o casal se completa, se complementa e se funde, chegaram à um nível de cumplicidade e simbiose onde era possível sentir plenamente o estado emocional do outro, apenas pelo olhar, pela voz, pelo toque. Não raro, depois do descanso, abriam os olhos ao mesmo tempo, sonhavam um com o outro, e muitas vezes um ía dizer uma coisa e o outro completava. Ao final de um ano a sintonia era tanta que de vez em quando já se conseguia até mesmo ler o pensamento.
Foi mais ou menos por essa época que M começou a pensar na possibilidade de investigá-lo, de tentar saber mais sobre esse homem misterioso, que lhe fazia tão feliz. Talvez desvendar o cotidiano desse íntimo desconhecido, saber o que ele fazia durante a semana, onde morava, se era casado, no que trabalhava, essas coisas. Mas refletiu bem e escolheu deixar de lado a curiosidade, preferiu não quebrar a magia que os unia, não queria desconfianças, não queria que ele fizesse o mesmo, que descobrisse tudo sobre ela. E assim continuaram, já que toda a felicidade do mundo cabia naquele singelo quarto. Ali era o endereço do amor, da paixão, do romance e do desejo. O resto, era apenas o mundo. E pequenas mudanças naquele quarto eram quase um acontecimento. O dia em que trocaram as cortinas. Uma pequena gravura que apareceu em uma das paredes. Os desenhos florais na estampa de um lençol. E um dia as paredes receberam uma nova tonalidade, o salmão suave passou para um rosa pálido. Isso foi uma grande novidade.
E o tempo foi passando. As fronhas dos travesseiros foram naturalmente se gastando, perdendo a cor, a textura. As conversas agora tinham diminuído um pouco, entremeadas de breves silêncios, que aos poucos foram se prolongando e muitas vezes a falta de assunto era compensada com a leitura de fotonovelas e os livrinhos de bolso. Num dos encontros sequer fizeram amor, apenas trocaram carícias. Depois, uma viagem impediu o próximo encontro, e uma desculpa aqui e outra ali fizeram rarear os sábados dos amantes. Até que numa dessas tardes de muito calor, as paredes do 609 sequer viram o casal se despir, apenas conversaram, olharam-se demoradamente, choraram, abraçaram-se e então convenceram-se de que poderiam parar de se encontrar. O rio da vida que seguisse seu fluxo. Sem culpa, ou rancor, deram-se ainda um longo e afetuoso último beijo.
Na saída para a rua, nenhuma palavra, apenas dois semblantes que se encontravam quem sabe pela última vez e cada um seguiu para um lado. H dobrou a próxima esquina, refletindo sobre isso que as pessoas chamam de amor. Se isso existe mesmo, dura pouco, uns dois anos, concluiu. De seu destino nada sabemos, apenas que deixou de freqüentar uma certa loja de livros usados daquele lado da cidade. M, que tomou o metrô mais próximo, olhava demoradamente as fotografias da revista, mas nada via, apenas pensava em como era possível conhecer alguém com tal profundidade e sintonia sem sequer saber seu nome. Dela também pouco sabemos, apenas que continua usando xampu com perfume de alfazema e adquiriu o hábito de comprar pastilhas de hortelã.
Dizem que aquele sebo fechou. Dizem também que vai reabrir em outro ponto da cidade, mas não se sabe bem onde, pois como sabemos, São Paulo é uma cidade grande, muito grande.
Tchello d'Barros
São Paulo é uma cidade grande, muito grande. M e H conheceram-se numa dessas situações inesperadas, que talvez por comodidade convencionamos chamar de acaso. M, há tempos que estava acostumada com a rotina do metrô, meia hora para ir e outra longa meia hora para voltar. Para suportar melhor esse limbo de tempo inútil, lia revistas de fotonovelas, que adquiria numa loja de livros usados, próxima à estação da Praça da Sé. A monotonia desse trajeto só era quebrada lá de vez em quando, com alguma paquera, pelo fuzuê com algum trombadinha ou algum ator fazendo sua performance e passando o chapéu.
Aquela manhã de sábado com garoa não prometia muito. Vagão cheio, M incomodou-se um pouco por ter que ficar em pé, e cavalheirismo, como se sabe, não anda muito na moda. Incomodou-se um pouco mais quando, no frenesi das pessoas que apressadamente entravam e saíam do vagão, um sujeito passou por trás dela, encostando-se, inevitavelmente. Este momento deve ter durado apenas um segundo, mas foi o suficiente para ela sentir um hálito de hortelã, e ele percebeu a fragrância de alfazema nos cabelos dela. Quando ele se afastou, ela olhou de soslaio, para identificar o atrevido, ao tempo que H, também discretamente, observava sua silhueta bem desenhada pelo reflexo da janela. Ato seguinte, um assento que ficou vago permitiu que a vida voltasse ao normal no escapismo de mais algumas páginas da fotonovela.
Desceu na estação de sempre e depois de mais uma manhã rotineira, ao meio-dia em ponto estava livre, seu fim-de-semana começou com o fim da garoa. Logo ela estava zanzando pelas barracas da feirinha da Liberdade, onde adquiriu umas bonequinhas de origami. O almoço se resumiu à alguns camarões no palito, assim, almoçava caminhando, observando os artesanatos e antigüidades espalhados pelas banquinhas. Naquele vai-e-vem de tanta gente, julgou ter visto o sujeito do metrô, próximo à uns quadros de paisagens japonesas que um pintor apresentava no chão de uma pracinha. Tímida do tipo ousada, aproximou-se para ter certeza, mas não viu mais o vulto, certamente era outra pessoa.
Lembrou-se que precisava renovar o estoque de suas revistas antigas de fotonovelas, e lá foi ela em direção ao sebo. Ao chegar foi diretamente à sala das tais revistas, onde levou um susto, pois ninguém menos que H estava ali, escolhendo alguns exemplares de bolsi-livros de faroeste, sua única distração literária. M imaginou inicialmente que H estivesse lhe seguindo, mas logo concluiu que isso não poderia ser, pois quando ela chegou ele já se encontrava no local. Depois pensou em coincidência, em destino, essas coisas que não entendemos muito bem, e logo já estava fantasiando que fosse algum investigador contratado, um tipo de detetive. Saiu de tais devaneios quando percebeu que ele já não estava mais naquela sala, então tratou de escolher alguns exemplares de revistas para sua coleção. O segundo susto foi na hora de pagar, pois ambos chegaram juntos ao balcão, o que fez com que o balconista perguntasse o típico 'quem está na vez?', o que inicialmente causou um certo constrangimento para ambos, mas foi a ocasião para uma breve troca de olhares e o esboço de um sorriso. O fato de H ter permitido que M pagasse primeiro, foi a senha para continuarem conversando e o manuseio do pagamento permitiu que ambos vissem que nenhum dos dois estava usando aliança.
As recentes aquisições permitiram que a conversa se prolongasse num café próximo dali. Esgotado o assunto das preferências literárias, trataram de puxar outros temas corriqueiros, amenidades bem triviais, apenas umas desculpas para poderem continuar se olhando, um adentrando o semblante do outro, tentando desvendar camadas de personalidades e nuances dessa atração inusitada. Esse mesmo ardente encontro de olhares, sequer permitiu que falassem sobre relacionamentos, fossem anteriores ou atuais, profissões ou endereços, esses itens que definem tanta gente. Eram apenas dois intensos olhares cruzados, que em seguida receberam a cumplicidade de duas mãos que se tocavam de leve, no início, e assim não demorou para que um certo par de lábios ávidos também se encontrassem. A vida naquele momento era apenas um sabor de hortelã e um suave aroma de alfazema, naquela esquina da megalópole.
Não se conheciam, não queriam se conhecer, mas desejavam se entregar. Talvez essa substância abstrata que chamamos de natureza humana, explique o fato de que dentro de poucas horas, já no número 609 de um hotel da rua Ipiranga, o par estivesse resfolegando num faiscante entrelaçamento com fusão de corpo e alma. O caos e o céu ao mesmo tempo. Depois, quando os corações foram desacelerando, o suor foi secando e os instintos permitiram que alguma lucidez se instalasse no recinto, começaram a conversar e, conversaram demoradamente, outro prazer que descobriram assim, sem querer. Concluíram que esse enigma, que as pessoas chamam de amor, pode acontecer assim, de repente, numa nublada tarde de sábado, no labirinto da gigantesca cidade. Ao saírem do hotel, ninguém sabia nome, idade, telefone, e-mail ou o que quer que fosse sobre o outro, esses ítens que identificam muita gente, o que não impediu de combinarem se encontrar no saguão do mesmo hotel, no mesmo horário, uma semana depois.
E passados sete dias, na tarde paulistana, desta vez ensolarada, lá estavam M e H novamente, tentando ser discretos na recepção do hotel, mas mal disfarçando a gana de avançar um sobre o outro, o que aconteceu de fato, logo que fecharam a porta do mesmo quarto 609. Pura selvageria. Frisson e êxtase. Volúpia e lascívia. Concupiscência e atração. Luxúria e lúbricas intimidades. Umidade e fricção. Ou o que muitos preferem resumir como tesão. Apagado o primeiro de muitos incêndios, M percebeu então que H havia trazido champanhe com morangos, e H pode enfim também notar os detalhes da lingerie provocante que M escolheu para o novo encontro. Algumas labaredas mais tarde, fruíram daquele prazer de conversar, de poder falar das sensações, dos sentimentos e das percepções desses momentos incandescentes. E falavam da saudade, e dos desejos, e dos medos, e das vontades, e das fantasias, e de todo um outro labirinto, o das afetividades que se entrelaçavam nas relações e no relacionamento. Antes de se despedir, H notou entre os pertences de M uma pequena réplica de espada japonesa, dessas para abrir envelopes, sinal de que ela devia ter passado novamente pela feirinha oriental. Já M, percebeu que H havia adquirido mais alguns livrinhos com histórias de bang-bang. Mas ninguém quis comentar nada, nada de observações, nada de perguntas. Manter algum mistério era muito mais excitante.
E assim se despediram, e assim se reencontraram, e assim foram repetindo seus encontros semanais, pontuados pela entrega total em suas experiências, preservadas por segredos mútuos, quase como se suas vidas particulares nem existissem, como se a vida real acontecesse apenas naquele idílico quarto 609. E mais não precisava. E como é próprio dessas raras uniões onde o casal se completa, se complementa e se funde, chegaram à um nível de cumplicidade e simbiose onde era possível sentir plenamente o estado emocional do outro, apenas pelo olhar, pela voz, pelo toque. Não raro, depois do descanso, abriam os olhos ao mesmo tempo, sonhavam um com o outro, e muitas vezes um ía dizer uma coisa e o outro completava. Ao final de um ano a sintonia era tanta que de vez em quando já se conseguia até mesmo ler o pensamento.
Foi mais ou menos por essa época que M começou a pensar na possibilidade de investigá-lo, de tentar saber mais sobre esse homem misterioso, que lhe fazia tão feliz. Talvez desvendar o cotidiano desse íntimo desconhecido, saber o que ele fazia durante a semana, onde morava, se era casado, no que trabalhava, essas coisas. Mas refletiu bem e escolheu deixar de lado a curiosidade, preferiu não quebrar a magia que os unia, não queria desconfianças, não queria que ele fizesse o mesmo, que descobrisse tudo sobre ela. E assim continuaram, já que toda a felicidade do mundo cabia naquele singelo quarto. Ali era o endereço do amor, da paixão, do romance e do desejo. O resto, era apenas o mundo. E pequenas mudanças naquele quarto eram quase um acontecimento. O dia em que trocaram as cortinas. Uma pequena gravura que apareceu em uma das paredes. Os desenhos florais na estampa de um lençol. E um dia as paredes receberam uma nova tonalidade, o salmão suave passou para um rosa pálido. Isso foi uma grande novidade.
E o tempo foi passando. As fronhas dos travesseiros foram naturalmente se gastando, perdendo a cor, a textura. As conversas agora tinham diminuído um pouco, entremeadas de breves silêncios, que aos poucos foram se prolongando e muitas vezes a falta de assunto era compensada com a leitura de fotonovelas e os livrinhos de bolso. Num dos encontros sequer fizeram amor, apenas trocaram carícias. Depois, uma viagem impediu o próximo encontro, e uma desculpa aqui e outra ali fizeram rarear os sábados dos amantes. Até que numa dessas tardes de muito calor, as paredes do 609 sequer viram o casal se despir, apenas conversaram, olharam-se demoradamente, choraram, abraçaram-se e então convenceram-se de que poderiam parar de se encontrar. O rio da vida que seguisse seu fluxo. Sem culpa, ou rancor, deram-se ainda um longo e afetuoso último beijo.
Na saída para a rua, nenhuma palavra, apenas dois semblantes que se encontravam quem sabe pela última vez e cada um seguiu para um lado. H dobrou a próxima esquina, refletindo sobre isso que as pessoas chamam de amor. Se isso existe mesmo, dura pouco, uns dois anos, concluiu. De seu destino nada sabemos, apenas que deixou de freqüentar uma certa loja de livros usados daquele lado da cidade. M, que tomou o metrô mais próximo, olhava demoradamente as fotografias da revista, mas nada via, apenas pensava em como era possível conhecer alguém com tal profundidade e sintonia sem sequer saber seu nome. Dela também pouco sabemos, apenas que continua usando xampu com perfume de alfazema e adquiriu o hábito de comprar pastilhas de hortelã.
Dizem que aquele sebo fechou. Dizem também que vai reabrir em outro ponto da cidade, mas não se sabe bem onde, pois como sabemos, São Paulo é uma cidade grande, muito grande.
008 - Conto "PADRE, PEQUEI NOVAMENTE!"
PADRE, PEQUEI NOVAMENTE!
Tchello d'Barros
Pequei novamente, padre. O senhor sabe que quando eu morrer, vou diretamente pro inferno, portanto não sei porque sempre venho aqui contar essas barbaridades que cometo por causa de meu ofício. Acho que volto pra aqui abusar de sua paciência porque assim me sinto mais aliviado, é um peso que sai dos ombros.
O senhor sabe que não escolhi essa profissão de matador, sempre penso que foi ela que me escolheu, pois tem vezes, quando faço um serviço caprichado, sinto que estou fazendo uma limpeza nesse mundo, parece até uma missão. Já lhe contei dos safados que tenho mandado pro outro mundo, ainda nem rezei todas as penitências do mês passado, mês movimentado, um político e um traficante na mesma semana. Ao menos o traficante era gente boa, ajudava a vizinhança na comunidade, fazia alguma coisa pelos pobres. Mas o senhor sabe que eu não escolho meus alvos, nem faço perguntas, nem quero saber dos motivos. Nesse ramo a gente deve ter critérios e princípios.
Mas padre, pequei de novo e dessa vez tô incomodado, esse serviço não tá me saindo da cabeça, é que dessa vez foi mulher, padre. Eu não gosto nem de bater em mulher, à não ser quando pedem, quanto mais fazer um trabalho desses. Já fiquei incomodado quando aceitei essa encomenda, por telefone, pois dessa vez foi uma mulher que me contratou. Aquela voz rouca e aveludada me pediu pra fazer uma execução e fiquei ainda mais intrigado quando ela disse que a vítima era outra mulher. Mas o senhor já me conhece, padre, não escolho meus alvos e gosto de fazer tudo muito bem feito. Sou um profissional. Tenho um nome no mercado.
Antes de investigar esse alvo, pra achar o momento certo do abate, comecei a me perguntar o motivo dessa contratante misteriosa, de voz rouca e aveludada. Provavelmente seria ciúme, disputa por homem, ou até por mulher, sabe-se lá. Podia ser por inveja. Talvez motivo de herança. Talvez queima de arquivo. Ou seria por grana mesmo, algum seguro de vida milionário. Chantagem. Olha, padre, nesse negócio, os motivos são os mais variados, acredite.
Quando comecei a vigiar sua casa, para estudar seus hábitos, primeiro me impressionou o fato dela morar sozinha. Depois me chamou a atenção sua beleza natural, dessa que não precisa de maquilagem, sua silhueta esguia, sua elegância clássica. Não tinha nem 30 anos, era muito discreta na aparência, muito reservada mesmo. Não tinha amigos, não recebia visitas nem visitava ninguém. Apesar de bonita, não tinha namorado nem saía para festas e baladas. Apenas aos sábados dava uma espécie de ronda pelas livrarias e sebos da cidade, assim aumentava as fileiras de livros nas estantes da casa. Aos domingos à tarde ela freqüentava um desses bingos eletrônicos, não sei se ganhava ou perdia, mas sua vida social se resumia nisso, veja só.
Durante a semana ela saía cedo de casa, passava numa confeitaria da esquina, tomava seu café preto, puro, comprava uns chocolates, muitos chocolates, e seguia para a entrada do edifício onde trabalhava. Não consegui descobrir exatamente o que ela fazia lá, parece-me que era uma importante executiva de uma multinacional ou algo assim. Ela saía ao meio-dia, sempre sozinha, almoçava nos restaurantes ali por perto, às vezes dava uma olhada nas novidades nas vitrines das lojas ou visitava uma ou outra livraria. E passeava pelas calçadas, usando seus terninhos bem alinhados, cores sóbrias, sempre com os cabelos presos, óculos combinando com o desenho das sombrancelhas, bolsa combinando com os sapatos, enfim, formava um conjunto bonito. A única coisa que não combinava eram aqueles olhos tristes, aquele semblante de quem está longe, em devaneio, como se algo faltasse, praia sem ondas, chopp sem colarinho. No fim da tarde, ao sair do trabalho, ia direto para casa e depois de algum tempo tomava um banho demorado e depois mergulhava em suas leituras, que não raro, passavam da meia-noite. E assim era sua rotina, o cotidiano de uma mulher reservada e comportada.
Concluí que a melhor forma de cumprir minha missão, seria dentro de sua casa e para tanto precisava estudar esse ambiente. Na primeira vez que entrei na casa, após ela ir para seu trabalho, notei seu bom gosto na decoração, tudo casava com tudo. Na sala havia um conjunto de gravuras de mandalas e também uma série de fotos de túmulos e crucifixos de cemitérios. Em seu quarto, sobre o criado-mudo, uns rosários e caixinhas de comprimidos anti-depressivos. Pelas paredes, imagens de Buda, Krishna e deuses egípcios. E havia também aquele cheiro no ar. Incenso. Muito incenso. Feito esse primeiro reconhecimento de terreno, depois de cheirar todos seus perfumes, muitos perfumes, saí da casa, tomando os devidos cuidados para não deixar nenhuma marca, nenhuma impressão. Nesse ofício a gente deve ser assim, muito discreto.
Resolvi retornar no dia seguinte, queria saber mais dessa moça que aparentemente não fazia mal à ninguém. Dessa vez, me demorei vendo seus albuns de fotografias. Boa origem, algumas viagens, formatura, um ex-namorado, que parece que chegou à ser noivo, várias fotos de praças, onde ela gostava de fotografar estátuas e esculturas, fotos de vários ângulos de uma mesma escultura, coisas desse tipo. Havia ainda um caderno com muitos manuscritos, poemas principalmente, quase sempre falando da morte, de suicídios e coisas assim. Até que gostei.
Não resisti e no dia seguinte voltei para bisbilhotar um pouco mais essa vida, cuja data final estava escrita em minhas mãos. Queria encontrar um motivo, embora isso fosse contra minhas regras. Com cuidado fui vasculhando tudo, mas não vi ainda nada que a fizesse merecer essa fatalidade. Sob a cama encontrei apenas umas revistas de homens nus e numa gaveta, várias calcinhas muito bonitas, em estilo erótico, com transparências, desenhos, fendas, penugens e outros enfeites. Acho que ela tinha lá suas fantasias. Remexendo mais um pouco, achei uma caixa com cartas do tal ex-namorado, as quais tive o cuidado de ler em ordem cronológica. As primeiras eram todas muito melosas, com declarações e muitas promessas de amor, algumas até mesmo elogiando as paisagens íntimas da destinatária. Depois de um ano começavam a falar de planos, de juntar as escovas de dentes. Mas depois o namoro foi esfriando, o relacionamento entrou em crise e as declarações passaram a ser reclamações, brigas e as irreconciliáveis diferenças de temperamento, personalidade e objetivos. Por fim, a última missiva falava mesmo era de despedida. Enfim, nada demais.
Tudo naquela casa era bonito, mas ao mesmo tempo, um pouco triste. Eu já estava puto da vida por não ter achado um motivo pra que alguém quisesse acabar com aquela mulher. Eu já conhecia sua intimidade, já estava me apegando à ela, já estava com vontade era de matar aquela que me contratou. Mas o senhor sabe, padre, sou um profissional, meus clientes em primeiro lugar, meu nome à zelar, e depois, meu pagamento já estava depositado em minha conta.
Em minhas andanças seguindo-a, notei como seus gestos eram delicados, era graciosa no andar e gesticulava de maneira sempre muito suave. Por isso escolhi um método que não fosse cruel e sanguinolento, como das outras vezes. Planejei esperá-la dentro de sua casa, um pouco de éter pressionado de surpresa em suas narinas a faria desmaiar imediatamente e depois uma ingestão induzida com pílulas e barbitúricos, formando um coquetel fatal, fariam o resto. Dormindo, rápido e indolor. Ela não merecia sofrer. E foi assim que aconteceu, padre, agora há pouco, assim que terminei vim direto pra cá, padre. E se estou tremendo assim e com a voz um pouco embargada, é por que depois do serviço feito, vi no criado-mudo um disco de DVD, onde estava escrito o nome dela e a palavra "declamações". Coloquei o disco no aparelho e apareceu a filmagem de um evento de poesia no café de uma livraria. E lá estava ela, de cabelos soltos, sem óculos, declamando seus poemas, com aquela sua voz rouca e aveludada...
Tchello d'Barros
Pequei novamente, padre. O senhor sabe que quando eu morrer, vou diretamente pro inferno, portanto não sei porque sempre venho aqui contar essas barbaridades que cometo por causa de meu ofício. Acho que volto pra aqui abusar de sua paciência porque assim me sinto mais aliviado, é um peso que sai dos ombros.
O senhor sabe que não escolhi essa profissão de matador, sempre penso que foi ela que me escolheu, pois tem vezes, quando faço um serviço caprichado, sinto que estou fazendo uma limpeza nesse mundo, parece até uma missão. Já lhe contei dos safados que tenho mandado pro outro mundo, ainda nem rezei todas as penitências do mês passado, mês movimentado, um político e um traficante na mesma semana. Ao menos o traficante era gente boa, ajudava a vizinhança na comunidade, fazia alguma coisa pelos pobres. Mas o senhor sabe que eu não escolho meus alvos, nem faço perguntas, nem quero saber dos motivos. Nesse ramo a gente deve ter critérios e princípios.
Mas padre, pequei de novo e dessa vez tô incomodado, esse serviço não tá me saindo da cabeça, é que dessa vez foi mulher, padre. Eu não gosto nem de bater em mulher, à não ser quando pedem, quanto mais fazer um trabalho desses. Já fiquei incomodado quando aceitei essa encomenda, por telefone, pois dessa vez foi uma mulher que me contratou. Aquela voz rouca e aveludada me pediu pra fazer uma execução e fiquei ainda mais intrigado quando ela disse que a vítima era outra mulher. Mas o senhor já me conhece, padre, não escolho meus alvos e gosto de fazer tudo muito bem feito. Sou um profissional. Tenho um nome no mercado.
Antes de investigar esse alvo, pra achar o momento certo do abate, comecei a me perguntar o motivo dessa contratante misteriosa, de voz rouca e aveludada. Provavelmente seria ciúme, disputa por homem, ou até por mulher, sabe-se lá. Podia ser por inveja. Talvez motivo de herança. Talvez queima de arquivo. Ou seria por grana mesmo, algum seguro de vida milionário. Chantagem. Olha, padre, nesse negócio, os motivos são os mais variados, acredite.
Quando comecei a vigiar sua casa, para estudar seus hábitos, primeiro me impressionou o fato dela morar sozinha. Depois me chamou a atenção sua beleza natural, dessa que não precisa de maquilagem, sua silhueta esguia, sua elegância clássica. Não tinha nem 30 anos, era muito discreta na aparência, muito reservada mesmo. Não tinha amigos, não recebia visitas nem visitava ninguém. Apesar de bonita, não tinha namorado nem saía para festas e baladas. Apenas aos sábados dava uma espécie de ronda pelas livrarias e sebos da cidade, assim aumentava as fileiras de livros nas estantes da casa. Aos domingos à tarde ela freqüentava um desses bingos eletrônicos, não sei se ganhava ou perdia, mas sua vida social se resumia nisso, veja só.
Durante a semana ela saía cedo de casa, passava numa confeitaria da esquina, tomava seu café preto, puro, comprava uns chocolates, muitos chocolates, e seguia para a entrada do edifício onde trabalhava. Não consegui descobrir exatamente o que ela fazia lá, parece-me que era uma importante executiva de uma multinacional ou algo assim. Ela saía ao meio-dia, sempre sozinha, almoçava nos restaurantes ali por perto, às vezes dava uma olhada nas novidades nas vitrines das lojas ou visitava uma ou outra livraria. E passeava pelas calçadas, usando seus terninhos bem alinhados, cores sóbrias, sempre com os cabelos presos, óculos combinando com o desenho das sombrancelhas, bolsa combinando com os sapatos, enfim, formava um conjunto bonito. A única coisa que não combinava eram aqueles olhos tristes, aquele semblante de quem está longe, em devaneio, como se algo faltasse, praia sem ondas, chopp sem colarinho. No fim da tarde, ao sair do trabalho, ia direto para casa e depois de algum tempo tomava um banho demorado e depois mergulhava em suas leituras, que não raro, passavam da meia-noite. E assim era sua rotina, o cotidiano de uma mulher reservada e comportada.
Concluí que a melhor forma de cumprir minha missão, seria dentro de sua casa e para tanto precisava estudar esse ambiente. Na primeira vez que entrei na casa, após ela ir para seu trabalho, notei seu bom gosto na decoração, tudo casava com tudo. Na sala havia um conjunto de gravuras de mandalas e também uma série de fotos de túmulos e crucifixos de cemitérios. Em seu quarto, sobre o criado-mudo, uns rosários e caixinhas de comprimidos anti-depressivos. Pelas paredes, imagens de Buda, Krishna e deuses egípcios. E havia também aquele cheiro no ar. Incenso. Muito incenso. Feito esse primeiro reconhecimento de terreno, depois de cheirar todos seus perfumes, muitos perfumes, saí da casa, tomando os devidos cuidados para não deixar nenhuma marca, nenhuma impressão. Nesse ofício a gente deve ser assim, muito discreto.
Resolvi retornar no dia seguinte, queria saber mais dessa moça que aparentemente não fazia mal à ninguém. Dessa vez, me demorei vendo seus albuns de fotografias. Boa origem, algumas viagens, formatura, um ex-namorado, que parece que chegou à ser noivo, várias fotos de praças, onde ela gostava de fotografar estátuas e esculturas, fotos de vários ângulos de uma mesma escultura, coisas desse tipo. Havia ainda um caderno com muitos manuscritos, poemas principalmente, quase sempre falando da morte, de suicídios e coisas assim. Até que gostei.
Não resisti e no dia seguinte voltei para bisbilhotar um pouco mais essa vida, cuja data final estava escrita em minhas mãos. Queria encontrar um motivo, embora isso fosse contra minhas regras. Com cuidado fui vasculhando tudo, mas não vi ainda nada que a fizesse merecer essa fatalidade. Sob a cama encontrei apenas umas revistas de homens nus e numa gaveta, várias calcinhas muito bonitas, em estilo erótico, com transparências, desenhos, fendas, penugens e outros enfeites. Acho que ela tinha lá suas fantasias. Remexendo mais um pouco, achei uma caixa com cartas do tal ex-namorado, as quais tive o cuidado de ler em ordem cronológica. As primeiras eram todas muito melosas, com declarações e muitas promessas de amor, algumas até mesmo elogiando as paisagens íntimas da destinatária. Depois de um ano começavam a falar de planos, de juntar as escovas de dentes. Mas depois o namoro foi esfriando, o relacionamento entrou em crise e as declarações passaram a ser reclamações, brigas e as irreconciliáveis diferenças de temperamento, personalidade e objetivos. Por fim, a última missiva falava mesmo era de despedida. Enfim, nada demais.
Tudo naquela casa era bonito, mas ao mesmo tempo, um pouco triste. Eu já estava puto da vida por não ter achado um motivo pra que alguém quisesse acabar com aquela mulher. Eu já conhecia sua intimidade, já estava me apegando à ela, já estava com vontade era de matar aquela que me contratou. Mas o senhor sabe, padre, sou um profissional, meus clientes em primeiro lugar, meu nome à zelar, e depois, meu pagamento já estava depositado em minha conta.
Em minhas andanças seguindo-a, notei como seus gestos eram delicados, era graciosa no andar e gesticulava de maneira sempre muito suave. Por isso escolhi um método que não fosse cruel e sanguinolento, como das outras vezes. Planejei esperá-la dentro de sua casa, um pouco de éter pressionado de surpresa em suas narinas a faria desmaiar imediatamente e depois uma ingestão induzida com pílulas e barbitúricos, formando um coquetel fatal, fariam o resto. Dormindo, rápido e indolor. Ela não merecia sofrer. E foi assim que aconteceu, padre, agora há pouco, assim que terminei vim direto pra cá, padre. E se estou tremendo assim e com a voz um pouco embargada, é por que depois do serviço feito, vi no criado-mudo um disco de DVD, onde estava escrito o nome dela e a palavra "declamações". Coloquei o disco no aparelho e apareceu a filmagem de um evento de poesia no café de uma livraria. E lá estava ela, de cabelos soltos, sem óculos, declamando seus poemas, com aquela sua voz rouca e aveludada...
007 - Conto "O LEGADO E O PRESENTE"
O LEGADO E O PRESENTE
Tchello d’Barros
Estavam algumas deidades de terceiro escalão reunidas em um quadrante próximo à Alfa Centauro, em um recente 24 de dezembro, como fazem todo ano, desta vez tramando sobre o destino de uma certa cidade provinciana do sul do Brasil, quando o assunto se encaminhava para a constatação de que o projeto foi inviável, que foram mais de 150 anos perdidos e não valeria a pena continuar com aquele nome no mapa.
Claro que isso gerou muito calor na discussão, pois as divindades andavam sobre a Terra e tinham lá suas convicções, algumas bem disparatadas, é verdade, pois tudo se tratava de distribuir bençãos ou castigos aos que tinham feito boas ações o ano todo. E aquela cidade estava na corda bamba.
Os mais otimistas argumentavam que não, que deveriam deixar a cidade como está pra ver como é que fica, pois é um povo trabalhador, muito trabalhador, trabalham 24 horas por dia, são um exemplo para o país. Mas aí um deusinho meio comunista levantou a mão e disse que isso não quer dizer nada, que são como formigas, que trabalham demais e a vida não é feita só de trabalho. Então, um terceiro entrou na parada, lembrando que não era verdade, que lá o povo gosta de festa também, promovem grandes festanças esvaziando tantos barris de chope quanto possível. Logo, entraram na discussão mais alguns, lembrando que além de tudo, é a terra que mais tem mulheres bonitas no país, que lá se fazem cristais maravilhosos, que se faz roupa bonita como ninguém, que as bandinhas são as mais animadas, e assim debatiam, cada vez botando mais lenha na fogueira da discussão.
Nisso a ala pessimista entrou na briga, lembrando que apesar de tudo, era um povo meio frio, desconfiado com visitantes, que não se abraçavam com freqüência, que muitos nem queriam saber de falar português, que no time de futebol da cidade só tinha pernas-de-pau, que no inverno não caía neve, que o rio fazia uma curva, que o chucrute estava azedo e assim por diante. Foi o que bastou para que quase caíssem na porrada, cada um reverberando suas certezas e proposições.
Foi nesse momento que entrou na cena um grupo de uns deuses esquisitos, com cada de mau, que pediram a palavra, imediatamente concedida, e contaram que a tarefa não era tão simples quanto se pensava, e que eles mesmos já tinham feito tentativas individuais nesse sentido, mas sem grandes resultados, que era preciso entrar em consenso e somente com uma ação coletiva poderiam efetivar seu intento, pois destruir uma cidade inteira como aquela não é tarefa fácil, ainda mais com aquelas casas em estilo enxaimel, resistentes a tudo. A turma toda ficou surpresa com esse depoimento e pediram mais explicações.
Um deles contou que tentou riscar a cidade do mapa, com algumas inundações, que isso incomodou de fato o povo, mas sempre deram um jeito de tirar tudo de letra. Isso causou certo pavor em alguns participantes da reunião, mas outro apartou logo e contou que tinha tentado pelo fogo, mas o máximo que conseguiu foi queimar o tampo de um morro das redondezas. Outro disse então que por muitas vezes espalhou pela cidade políticos corruptos, gente consumista, empresários fominhas, poetas ruins e toda uma laia de gente maledicente, invejosa e mesquinha. Lamuriou então que não adiantou de nada, esses apenas trataram de se miscigenar com os habitantes e o resultado está aí. Outros ainda quiseram enumerar suas tentativas, pra contar das favelas, capivaras, academias, argentinos, pagodeiros e outras presepadas, mas o conselho superior interrompeu.
Estavam para concluir e tomar uma decisão que resultasse numa ação conjunta, pois estava visto que somente um esforço coletivo poderia levar a cabo tão importante tarefa, quando de repente, um deusinho que até estava meio escondido, lendo absorto qualquer coisa num livro, pediu a palavra, ou melhor, interrompeu o conselho e foi logo dizendo que sabia de algo na cidade que justificaria sua continuidade, sua permanência. Todos ficaram espantados e queriam saber do que se tratava, sendo que um já foi logo dizendo que era o apfelstrudel, que faziam num bairro da periferia. Outro perguntou se por acaso se tratava dos ipês-amarelos que na primavera enfeitavam de ouro a cidade. E já estavam todos animadinhos para darem seus pitacos quando ele mostrou à todos o livro que tinha descoberto e trouxe da biblioteca pública da cidade: um livro de poemas haicais. Todos ficaram estupefatos a princípio, mas em seguida ele lhes contou que naquela cidade viveu um grande poeta e que este escreveu inúmeros poemas nesse estilo e até publicou vários livros e que esses livros hoje estão à disposição do povo na biblioteca.
Já era quase meia noite, quase 25 de dezembro, e então os deuses ouviram a leitura dos poemas, causando comoção à todos. E foi assim que decidiram naquela noite que a cidade deveria permanecer no mapa. Todos deram sua benção antes de dormir.
Tchello d’Barros
Estavam algumas deidades de terceiro escalão reunidas em um quadrante próximo à Alfa Centauro, em um recente 24 de dezembro, como fazem todo ano, desta vez tramando sobre o destino de uma certa cidade provinciana do sul do Brasil, quando o assunto se encaminhava para a constatação de que o projeto foi inviável, que foram mais de 150 anos perdidos e não valeria a pena continuar com aquele nome no mapa.
Claro que isso gerou muito calor na discussão, pois as divindades andavam sobre a Terra e tinham lá suas convicções, algumas bem disparatadas, é verdade, pois tudo se tratava de distribuir bençãos ou castigos aos que tinham feito boas ações o ano todo. E aquela cidade estava na corda bamba.
Os mais otimistas argumentavam que não, que deveriam deixar a cidade como está pra ver como é que fica, pois é um povo trabalhador, muito trabalhador, trabalham 24 horas por dia, são um exemplo para o país. Mas aí um deusinho meio comunista levantou a mão e disse que isso não quer dizer nada, que são como formigas, que trabalham demais e a vida não é feita só de trabalho. Então, um terceiro entrou na parada, lembrando que não era verdade, que lá o povo gosta de festa também, promovem grandes festanças esvaziando tantos barris de chope quanto possível. Logo, entraram na discussão mais alguns, lembrando que além de tudo, é a terra que mais tem mulheres bonitas no país, que lá se fazem cristais maravilhosos, que se faz roupa bonita como ninguém, que as bandinhas são as mais animadas, e assim debatiam, cada vez botando mais lenha na fogueira da discussão.
Nisso a ala pessimista entrou na briga, lembrando que apesar de tudo, era um povo meio frio, desconfiado com visitantes, que não se abraçavam com freqüência, que muitos nem queriam saber de falar português, que no time de futebol da cidade só tinha pernas-de-pau, que no inverno não caía neve, que o rio fazia uma curva, que o chucrute estava azedo e assim por diante. Foi o que bastou para que quase caíssem na porrada, cada um reverberando suas certezas e proposições.
Foi nesse momento que entrou na cena um grupo de uns deuses esquisitos, com cada de mau, que pediram a palavra, imediatamente concedida, e contaram que a tarefa não era tão simples quanto se pensava, e que eles mesmos já tinham feito tentativas individuais nesse sentido, mas sem grandes resultados, que era preciso entrar em consenso e somente com uma ação coletiva poderiam efetivar seu intento, pois destruir uma cidade inteira como aquela não é tarefa fácil, ainda mais com aquelas casas em estilo enxaimel, resistentes a tudo. A turma toda ficou surpresa com esse depoimento e pediram mais explicações.
Um deles contou que tentou riscar a cidade do mapa, com algumas inundações, que isso incomodou de fato o povo, mas sempre deram um jeito de tirar tudo de letra. Isso causou certo pavor em alguns participantes da reunião, mas outro apartou logo e contou que tinha tentado pelo fogo, mas o máximo que conseguiu foi queimar o tampo de um morro das redondezas. Outro disse então que por muitas vezes espalhou pela cidade políticos corruptos, gente consumista, empresários fominhas, poetas ruins e toda uma laia de gente maledicente, invejosa e mesquinha. Lamuriou então que não adiantou de nada, esses apenas trataram de se miscigenar com os habitantes e o resultado está aí. Outros ainda quiseram enumerar suas tentativas, pra contar das favelas, capivaras, academias, argentinos, pagodeiros e outras presepadas, mas o conselho superior interrompeu.
Estavam para concluir e tomar uma decisão que resultasse numa ação conjunta, pois estava visto que somente um esforço coletivo poderia levar a cabo tão importante tarefa, quando de repente, um deusinho que até estava meio escondido, lendo absorto qualquer coisa num livro, pediu a palavra, ou melhor, interrompeu o conselho e foi logo dizendo que sabia de algo na cidade que justificaria sua continuidade, sua permanência. Todos ficaram espantados e queriam saber do que se tratava, sendo que um já foi logo dizendo que era o apfelstrudel, que faziam num bairro da periferia. Outro perguntou se por acaso se tratava dos ipês-amarelos que na primavera enfeitavam de ouro a cidade. E já estavam todos animadinhos para darem seus pitacos quando ele mostrou à todos o livro que tinha descoberto e trouxe da biblioteca pública da cidade: um livro de poemas haicais. Todos ficaram estupefatos a princípio, mas em seguida ele lhes contou que naquela cidade viveu um grande poeta e que este escreveu inúmeros poemas nesse estilo e até publicou vários livros e que esses livros hoje estão à disposição do povo na biblioteca.
Já era quase meia noite, quase 25 de dezembro, e então os deuses ouviram a leitura dos poemas, causando comoção à todos. E foi assim que decidiram naquela noite que a cidade deveria permanecer no mapa. Todos deram sua benção antes de dormir.
006 - Conto "UM INSTANTE DE INSTINTO"
"UM INSTANTE DE INSTINTO"
Tchello d’Barros
“Não, senhores repórteres, nada mais tenho a declarar. Como delegado incumbido desse caso, apenas quero registrar aqui meu espanto, por um crime tão violento e aparentemente sem motivos. O apenado, pelo que pudemos apurar, era um cidadão tranqüilo, honesto e trabalhador. Consta nesta ficha que não tinha vícios, pagava suas contas e impostos em dia e era considerado bom vizinho no condomínio. O único registro que temos de ocorrência em seu nome foi quando ele mesmo há alguns anos entrou em contato com nosso plantão, solicitando uma viatura urgente, pois havia acontecido um estupro num beco próximo de uma praça de seu bairro. Até agora não entendi o que levaria um cara normal assim, a estrangular o psicanalista e em seguida estuprar a secretária, em pleno consultório. Putz! Vá entender a natureza humana!”
“Bem, ele já trabalhava há alguns anos aqui no banco, deixe ver, creio que há uns nove anos talvez, mas nunca notamos nenhum sinal de agressividade ou outro comportamento suspeito. Até que era um cara legal, participava dos bolões da loteria, comprava rifas e até participava da tradicional “vaquinha”, quando alguém fazia aniversário. É verdade que era meio quietão e não participava das excursões turísticas que volta-e-meia a turma aqui do banco programava. Mas olha, ficamos todos aqui estarrecidos com essa notícia, um cara tão calmo...”
"Não sei, é difícil dizer com certeza, a gente nunca sabe quem está por detrás de um comportamento do tipo normal, como ele. Sabe, aqui no prédio ele nunca deu problema, não. Como síndico, eu até admirava ele, pois sempre colaborava quando tinha algum problema no edifício. É, a verdade é que nunca recebia visitas. Nem amigos, nem namoradas, nada. Puxa, como é que um cara assim pacato pode cair numa desgraça dessas...”
"Ah, ele era meio paradão, meio esquisito, ficava sempre na dele. Estudamos três anos juntos na faculdade e ele, sempre reservado. Não paquerava as colegas nem participava das turminhas que se formavam. Eu até dei em cima dele uma vez, sabe, pois até que não era feio, mas ele nem me deu bola. Só tirava notas boas, é verdade, mas não se enturmava com a galera”.
“Olha, aqui na biblioteca ele sempre aparecia, veja aqui na ficha, pegava sempre esses livros de auto-ajuda, especialmente os de poder da mente, hipnotismo, essas coisas. Nunca atrasou nas devoluções e era sempre muito educado com as meninas daqui. O último livro que levou era sobre essas coisas de inconsciente e desejos reprimidos, mas esse não foi devolvido. É, pensando bem, acho que era um cara meio reprimido, meio solitário, sei lá. Mesmo assim, ficamos todos tristes aqui com o acontecido. Se acho que mereceu prisão perpétua? Ah, sei lá, deixar um cara desse solto por aí, é meio brabo, né!"
"Infelizmente a moça ainda está bastante abalada, recuperando-se do estado de choque e não está em condições de dar entrevista, vocês me desculpem. Como ginecologista, conversei muito com ela, durante o acompanhamento psicológico pós-estupro e posso apenas comentar que ela própria ainda não entendeu nada. Me disse que ele já tinha feito várias consultas, sessões de relaxamento e agora o doutor estava para iniciar uma terapia com hipnose, frases de efeito e regressão. Algo em torno do poder das palavras, para liberar os instintos, pois parecia que o sujeito era meio tenso ou algo assim. Pobre moça, tão simpática”.
"Olha, sei pouca coisa do caso, estou começando hoje aqui, substituindo a outra moça, que parece, foi violentada por um cliente. O pouco que sei vi no jornal. Não posso conversar muito, preciso desse emprego, viu? Não sei se ajuda, mas arrumando a bagunça que ficou isso aqui por causa do crime, encontrei o gravadorzinho que o psicanalista usava para registrar as sessões. Parece que nem o delegado viu isso. Até que tinha uma mensagem bonita, que o terapeuta dizia enquanto o cara estava deitado no divã, ouça como é bonitinho:
“Agora feche os olhos e respire fundo, relaxe seu corpo, sua mente e sua alma. Esqueça as tensões e os problemas do mundo, descanse no sono, que seu corpo se acalma. Cabeça, tronco e membros já em sintonia, siga respirando sentindo a dormência. O corpo e espírito estão em harmonia, seu instinto vai vibrando nesta freqüência. Mergulhe em si cada vez mais para dentro, encontre as profundezas em seu interior. E abra-se sem medo de culpa ou tormento, solte vontades, desejos e sua dor. Venha à tona seu âmago neste momento, liberte todo seu eu sem medo ou temor.”
Tchello d’Barros
“Não, senhores repórteres, nada mais tenho a declarar. Como delegado incumbido desse caso, apenas quero registrar aqui meu espanto, por um crime tão violento e aparentemente sem motivos. O apenado, pelo que pudemos apurar, era um cidadão tranqüilo, honesto e trabalhador. Consta nesta ficha que não tinha vícios, pagava suas contas e impostos em dia e era considerado bom vizinho no condomínio. O único registro que temos de ocorrência em seu nome foi quando ele mesmo há alguns anos entrou em contato com nosso plantão, solicitando uma viatura urgente, pois havia acontecido um estupro num beco próximo de uma praça de seu bairro. Até agora não entendi o que levaria um cara normal assim, a estrangular o psicanalista e em seguida estuprar a secretária, em pleno consultório. Putz! Vá entender a natureza humana!”
“Bem, ele já trabalhava há alguns anos aqui no banco, deixe ver, creio que há uns nove anos talvez, mas nunca notamos nenhum sinal de agressividade ou outro comportamento suspeito. Até que era um cara legal, participava dos bolões da loteria, comprava rifas e até participava da tradicional “vaquinha”, quando alguém fazia aniversário. É verdade que era meio quietão e não participava das excursões turísticas que volta-e-meia a turma aqui do banco programava. Mas olha, ficamos todos aqui estarrecidos com essa notícia, um cara tão calmo...”
"Não sei, é difícil dizer com certeza, a gente nunca sabe quem está por detrás de um comportamento do tipo normal, como ele. Sabe, aqui no prédio ele nunca deu problema, não. Como síndico, eu até admirava ele, pois sempre colaborava quando tinha algum problema no edifício. É, a verdade é que nunca recebia visitas. Nem amigos, nem namoradas, nada. Puxa, como é que um cara assim pacato pode cair numa desgraça dessas...”
"Ah, ele era meio paradão, meio esquisito, ficava sempre na dele. Estudamos três anos juntos na faculdade e ele, sempre reservado. Não paquerava as colegas nem participava das turminhas que se formavam. Eu até dei em cima dele uma vez, sabe, pois até que não era feio, mas ele nem me deu bola. Só tirava notas boas, é verdade, mas não se enturmava com a galera”.
“Olha, aqui na biblioteca ele sempre aparecia, veja aqui na ficha, pegava sempre esses livros de auto-ajuda, especialmente os de poder da mente, hipnotismo, essas coisas. Nunca atrasou nas devoluções e era sempre muito educado com as meninas daqui. O último livro que levou era sobre essas coisas de inconsciente e desejos reprimidos, mas esse não foi devolvido. É, pensando bem, acho que era um cara meio reprimido, meio solitário, sei lá. Mesmo assim, ficamos todos tristes aqui com o acontecido. Se acho que mereceu prisão perpétua? Ah, sei lá, deixar um cara desse solto por aí, é meio brabo, né!"
"Infelizmente a moça ainda está bastante abalada, recuperando-se do estado de choque e não está em condições de dar entrevista, vocês me desculpem. Como ginecologista, conversei muito com ela, durante o acompanhamento psicológico pós-estupro e posso apenas comentar que ela própria ainda não entendeu nada. Me disse que ele já tinha feito várias consultas, sessões de relaxamento e agora o doutor estava para iniciar uma terapia com hipnose, frases de efeito e regressão. Algo em torno do poder das palavras, para liberar os instintos, pois parecia que o sujeito era meio tenso ou algo assim. Pobre moça, tão simpática”.
"Olha, sei pouca coisa do caso, estou começando hoje aqui, substituindo a outra moça, que parece, foi violentada por um cliente. O pouco que sei vi no jornal. Não posso conversar muito, preciso desse emprego, viu? Não sei se ajuda, mas arrumando a bagunça que ficou isso aqui por causa do crime, encontrei o gravadorzinho que o psicanalista usava para registrar as sessões. Parece que nem o delegado viu isso. Até que tinha uma mensagem bonita, que o terapeuta dizia enquanto o cara estava deitado no divã, ouça como é bonitinho:
“Agora feche os olhos e respire fundo, relaxe seu corpo, sua mente e sua alma. Esqueça as tensões e os problemas do mundo, descanse no sono, que seu corpo se acalma. Cabeça, tronco e membros já em sintonia, siga respirando sentindo a dormência. O corpo e espírito estão em harmonia, seu instinto vai vibrando nesta freqüência. Mergulhe em si cada vez mais para dentro, encontre as profundezas em seu interior. E abra-se sem medo de culpa ou tormento, solte vontades, desejos e sua dor. Venha à tona seu âmago neste momento, liberte todo seu eu sem medo ou temor.”
005 - Conto "APENAS MAIS UM ENTARDECER"
APENAS MAIS UM ENTARDECER
Tchello d’Barros
_Alô! Sim, sou eu. Não, não vou pra Floripa hoje. Ah, posso imaginar que a brisa salgada esteja te fazendo muito bem, estou até ouvindo o murmúrio das ondas batendo aí nas pedras duras da Praia Mole. É, ficarei em Blumenau hoje, daqui da Ponte de Ferro dá pra ver esse poente escarlate
tingindo lentamente a silhueta da cidade. Um beijo pra você também, tchau-tchau!
Diziam que ela era uma frágil e sensível garota, porém, de temperamento forte e personalidade singular. Esbelta, lisos cabelos cor de cobre, possuía um par de sonhadores olhos azuis, que mais parecem duas gotas do Atlântico. Vive lendo, escrevendo e cercada de letras, versos e livros. Uma biblioteca é seu cenário ideal.
Naquela tarde, depois de ligar para o namorado, contemplava o poente na praia, quando um tanto hipnotizada pelo tapete de estrelinhas que o sol estendia sobre as ondas, acabou adormecendo ali na pedra mesmo, num torpor que lhe levou a sonhar com Quintana e Saramago. Sonhou ainda com belas garças brancas que alçavam vôo na praia, desaparecendo no rubro horizonte. Talvez sejam essas mesmas garças que vem toda tarde trazer o pôr-do-sol e achar pousada nas ramagens debaixo da Ponte de Ferro em Blumenau.
Uma onda mais forte acordou-a, porém não estava mais na praia. Acordara por estranho que pareça, dentro de uma palavra. Atônita, apoplética, percebeu que estava dentro de um círculo branco cujas paredes mediam cerca de um metro e meio de altura, feitas de macios cubos texturizados com escritas em relevo, possivelmente poemas de Camões. Conseguiu sair do círculo e percebeu que estava sobre outro círculo. Ao olhar ao redor é que viu que estava sobre a letra"O" da palavra Amor. Olhando mais ao longe percebeu dezenas, talvez centenas de estruturas como aquela formando palavras e mais palavras. Concluiu que tinha acordado dentro de um poema.
Ainda muito perplexa, começou a explorar o ambiente, pulou sobre a letra "R",depois voltou, caminhou sobre o "M" e ao chegar ao "A", ficou observando o que parecia ser um céu, todo gravado com desenhos fractais e ficou pensando num modo de sair daquele labirinto surreal e infinito coberto de palavras. Sentada sobre o travessão da letra "A", já estava soluçando quando teve a idéia de tentar uma ligação do celular.
_Alô! Não, já saí da ponte, estou no mirante da Beira-rio observando uma família de capivaras sentadas à margem do rio. É, parece que se perguntam onde foi parar aquele barco branco que ficava sempre ali. Sim, perto de onde pousam as garças para passar a noite. O quê? Como assim, está num labirinto de palavras? Ah sei, acordou dentro da palavra Amor, é! Pois então faça o seguinte: junte alguns cubos e vá empurrando-os ao lado do "R" até formar a letra "T". Depois deite sobre ela com o corpo no sentido da coluna da letra e os braços no travessão. Em seguida, querida, respire fundo, relaxe e simplesmente aguarde pegar no sono. Exatamente, apenas faça isso!
E assim foi, apesar do absurdo da situação, ela resolveu tentar. No início estava difícil dormir pois ficou pensando em tudo aquilo, porque não acordou dentro de outra palavra? Por que não a palavra "ouro" ou mesmo "dollar", quem sabe? Pensava ainda na sonoridade da palavra Amor com o "T" ao lado e, imersa nesses devaneios acabou finalmente adormecendo. Sonhou, ainda que por pouco tempo, com as incríveis inscrições rupestres na Ilha do Campeche, os desenhos na pedra formam texturas enigmáticas. Estava nisso quando os gritos estridentes de um bando de gaivotas lhe acordou.
Quando despertou e os seus olhos encontraram o azul do mar, viu que estava novamente na praia. Assustada com tudo que acabara de acontecer, desceu das pedras, sentindo alguma vertigem e caminhou pela areia molhada, que refletia as últimas pinceladas do poente. Ainda percebeu uma pequena garça branca na areia, que foi lhe acompanhando com o olhar até que não se podia mais ouvir o suave murmúrio da espuma das ondas...
Tchello d’Barros
_Alô! Sim, sou eu. Não, não vou pra Floripa hoje. Ah, posso imaginar que a brisa salgada esteja te fazendo muito bem, estou até ouvindo o murmúrio das ondas batendo aí nas pedras duras da Praia Mole. É, ficarei em Blumenau hoje, daqui da Ponte de Ferro dá pra ver esse poente escarlate
tingindo lentamente a silhueta da cidade. Um beijo pra você também, tchau-tchau!
Diziam que ela era uma frágil e sensível garota, porém, de temperamento forte e personalidade singular. Esbelta, lisos cabelos cor de cobre, possuía um par de sonhadores olhos azuis, que mais parecem duas gotas do Atlântico. Vive lendo, escrevendo e cercada de letras, versos e livros. Uma biblioteca é seu cenário ideal.
Naquela tarde, depois de ligar para o namorado, contemplava o poente na praia, quando um tanto hipnotizada pelo tapete de estrelinhas que o sol estendia sobre as ondas, acabou adormecendo ali na pedra mesmo, num torpor que lhe levou a sonhar com Quintana e Saramago. Sonhou ainda com belas garças brancas que alçavam vôo na praia, desaparecendo no rubro horizonte. Talvez sejam essas mesmas garças que vem toda tarde trazer o pôr-do-sol e achar pousada nas ramagens debaixo da Ponte de Ferro em Blumenau.
Uma onda mais forte acordou-a, porém não estava mais na praia. Acordara por estranho que pareça, dentro de uma palavra. Atônita, apoplética, percebeu que estava dentro de um círculo branco cujas paredes mediam cerca de um metro e meio de altura, feitas de macios cubos texturizados com escritas em relevo, possivelmente poemas de Camões. Conseguiu sair do círculo e percebeu que estava sobre outro círculo. Ao olhar ao redor é que viu que estava sobre a letra"O" da palavra Amor. Olhando mais ao longe percebeu dezenas, talvez centenas de estruturas como aquela formando palavras e mais palavras. Concluiu que tinha acordado dentro de um poema.
Ainda muito perplexa, começou a explorar o ambiente, pulou sobre a letra "R",depois voltou, caminhou sobre o "M" e ao chegar ao "A", ficou observando o que parecia ser um céu, todo gravado com desenhos fractais e ficou pensando num modo de sair daquele labirinto surreal e infinito coberto de palavras. Sentada sobre o travessão da letra "A", já estava soluçando quando teve a idéia de tentar uma ligação do celular.
_Alô! Não, já saí da ponte, estou no mirante da Beira-rio observando uma família de capivaras sentadas à margem do rio. É, parece que se perguntam onde foi parar aquele barco branco que ficava sempre ali. Sim, perto de onde pousam as garças para passar a noite. O quê? Como assim, está num labirinto de palavras? Ah sei, acordou dentro da palavra Amor, é! Pois então faça o seguinte: junte alguns cubos e vá empurrando-os ao lado do "R" até formar a letra "T". Depois deite sobre ela com o corpo no sentido da coluna da letra e os braços no travessão. Em seguida, querida, respire fundo, relaxe e simplesmente aguarde pegar no sono. Exatamente, apenas faça isso!
E assim foi, apesar do absurdo da situação, ela resolveu tentar. No início estava difícil dormir pois ficou pensando em tudo aquilo, porque não acordou dentro de outra palavra? Por que não a palavra "ouro" ou mesmo "dollar", quem sabe? Pensava ainda na sonoridade da palavra Amor com o "T" ao lado e, imersa nesses devaneios acabou finalmente adormecendo. Sonhou, ainda que por pouco tempo, com as incríveis inscrições rupestres na Ilha do Campeche, os desenhos na pedra formam texturas enigmáticas. Estava nisso quando os gritos estridentes de um bando de gaivotas lhe acordou.
Quando despertou e os seus olhos encontraram o azul do mar, viu que estava novamente na praia. Assustada com tudo que acabara de acontecer, desceu das pedras, sentindo alguma vertigem e caminhou pela areia molhada, que refletia as últimas pinceladas do poente. Ainda percebeu uma pequena garça branca na areia, que foi lhe acompanhando com o olhar até que não se podia mais ouvir o suave murmúrio da espuma das ondas...
004 - Conto "INTERTEXTUALIDADES"
INTERTEXTUALIDADES
Tchello d’Barros
Sebos são lugares onde se comercializam livros usados. Isso todo mundo sabe. O que muitos talvez não saibam é que tais lojas recebem os visitantes mais ecléticos, formando uma galeria de personagens tão ou mais interessantes que os que povoam os livros nas estantes. São intelectuais em busca de obras raras, estudantes procurando livros técnicos, artistas, escritores, donas-de-casa e gente de todo naipe em busca de preciosidades a baixo custo, num lugar onde até mesmo relíquias têm status de novidade.
Dia destes, ao procurar por um volume de “O Profeta”, do anglo/indiano Gibran Kalil Gibran, sem encontrá-lo, acabei topando com um exemplar do “Rubayat”, obra poética do persa setecentista Omar Khayann. Meu dia de sorte. Ao retirá-lo da estante, ouvi quando o livro disse tchau! aos outros dois volumes que o ladeavam. Estes, responderam educadamente e até desejaram-lhe boa sorte. Nessa altura da crônica, julgo importante avisar que aqui neste espaço é permitido que os livros conversem entre si. Curioso com esse diálogo inusitado, permiti que eles proseassem ainda um pouco mais.
O primeiro deles, a “Odisséia”, de Homero, disse que por ser de uma edição antiga, já havia sido lido várias vezes e morou em uma biblioteca pública. Depois, por não ter sido devolvido, residiu por muito tempo numa coleção particular. Contou que enquanto era lido, aproveitava para ler o rosto de seus leitores. Parece que o mais interessante havia sido um professor de história ou literatura, já aposentado, que lia os versos comparando-os com outra edição, cujos textos eram em prosa. Seu semblante denunciava que ao estudar o passado do herói grego Ulysses, tentava entender nossa atual civilização caótica e desenfreada.
O segundo livro, era “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint Exupéry, por sua vez, narrou que leu poucos rostos até o momento. Tinha sido comprado como presente para um adolescente, mas o garoto era fissurado em jogos de vídeo e contentou-se em olhar apenas as figurinhas. Um ano mais tarde, teria sido lido pela irmã, que tencionava ser miss ou modelo. Pela expressão do rosto, a moçoila não havia captado muito bem as sutis mensagens e ensinamentos da obra do aviador francês que gostava de visitar Florianópolis. Mesmo assim foi uma experiência inesquecível, já que ela possuía um belo par de olhos esverdeados, duas gotas do Atlântico flutuando na superfície daquele semblante. Contou ainda que o mais marcante foi ter convivido com dois vizinhos famosos. De um lado, “Histórias Extraordinárias”, de Edgar Allan Poe, e do outro, nada menos que “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Ambos lhe davam calafrios, mas estava cercado por um pouco do melhor já produzido pela história da literatura.
Nesse ponto, eu já estava quase saindo do sebo, quando aqueles dois livros perguntaram ao meu “Rubayat” sobre suas leituras. Nosso amigo, com a voz um tanto romântica e meio embriagada de vinho, contou que até o momento havia sido lido, coincidentemente por três poetas. Acrescentou ainda, não sem certo orgulho, que o povo em geral ainda não descobriu tal preciosidade. Continuou, dizendo que no próprio sebo, durante os dois dias apenas em que ali ficou, fora vizinho de um exemplar autografado de “O Código das Águas”, de Lindolf Bell. Tal livro estava indignado por, mesmo com a assinatura do poeta, ter sido vendido para um sebo, ou melhor, foi trocado por umas revistas de auto-ajuda. Lembrava-se ainda da expressão emocionada do poeta ao fazer a dedicatória em sua página virgem. Depois dessa, os livros despediram-se cordialmente, e, pensativo, fui para casa.
Nessa noite, principiei a primeira leitura do “Rubayat”, mas não antes, como convém, de um oportuno beijo e de uma apropriada taça de vinho tinto.
Tchello d’Barros
Sebos são lugares onde se comercializam livros usados. Isso todo mundo sabe. O que muitos talvez não saibam é que tais lojas recebem os visitantes mais ecléticos, formando uma galeria de personagens tão ou mais interessantes que os que povoam os livros nas estantes. São intelectuais em busca de obras raras, estudantes procurando livros técnicos, artistas, escritores, donas-de-casa e gente de todo naipe em busca de preciosidades a baixo custo, num lugar onde até mesmo relíquias têm status de novidade.
Dia destes, ao procurar por um volume de “O Profeta”, do anglo/indiano Gibran Kalil Gibran, sem encontrá-lo, acabei topando com um exemplar do “Rubayat”, obra poética do persa setecentista Omar Khayann. Meu dia de sorte. Ao retirá-lo da estante, ouvi quando o livro disse tchau! aos outros dois volumes que o ladeavam. Estes, responderam educadamente e até desejaram-lhe boa sorte. Nessa altura da crônica, julgo importante avisar que aqui neste espaço é permitido que os livros conversem entre si. Curioso com esse diálogo inusitado, permiti que eles proseassem ainda um pouco mais.
O primeiro deles, a “Odisséia”, de Homero, disse que por ser de uma edição antiga, já havia sido lido várias vezes e morou em uma biblioteca pública. Depois, por não ter sido devolvido, residiu por muito tempo numa coleção particular. Contou que enquanto era lido, aproveitava para ler o rosto de seus leitores. Parece que o mais interessante havia sido um professor de história ou literatura, já aposentado, que lia os versos comparando-os com outra edição, cujos textos eram em prosa. Seu semblante denunciava que ao estudar o passado do herói grego Ulysses, tentava entender nossa atual civilização caótica e desenfreada.
O segundo livro, era “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint Exupéry, por sua vez, narrou que leu poucos rostos até o momento. Tinha sido comprado como presente para um adolescente, mas o garoto era fissurado em jogos de vídeo e contentou-se em olhar apenas as figurinhas. Um ano mais tarde, teria sido lido pela irmã, que tencionava ser miss ou modelo. Pela expressão do rosto, a moçoila não havia captado muito bem as sutis mensagens e ensinamentos da obra do aviador francês que gostava de visitar Florianópolis. Mesmo assim foi uma experiência inesquecível, já que ela possuía um belo par de olhos esverdeados, duas gotas do Atlântico flutuando na superfície daquele semblante. Contou ainda que o mais marcante foi ter convivido com dois vizinhos famosos. De um lado, “Histórias Extraordinárias”, de Edgar Allan Poe, e do outro, nada menos que “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Ambos lhe davam calafrios, mas estava cercado por um pouco do melhor já produzido pela história da literatura.
Nesse ponto, eu já estava quase saindo do sebo, quando aqueles dois livros perguntaram ao meu “Rubayat” sobre suas leituras. Nosso amigo, com a voz um tanto romântica e meio embriagada de vinho, contou que até o momento havia sido lido, coincidentemente por três poetas. Acrescentou ainda, não sem certo orgulho, que o povo em geral ainda não descobriu tal preciosidade. Continuou, dizendo que no próprio sebo, durante os dois dias apenas em que ali ficou, fora vizinho de um exemplar autografado de “O Código das Águas”, de Lindolf Bell. Tal livro estava indignado por, mesmo com a assinatura do poeta, ter sido vendido para um sebo, ou melhor, foi trocado por umas revistas de auto-ajuda. Lembrava-se ainda da expressão emocionada do poeta ao fazer a dedicatória em sua página virgem. Depois dessa, os livros despediram-se cordialmente, e, pensativo, fui para casa.
Nessa noite, principiei a primeira leitura do “Rubayat”, mas não antes, como convém, de um oportuno beijo e de uma apropriada taça de vinho tinto.
003 - Conto "O CASO DO MENINO MILAGREIRO"
O CASO DO MENINO MILAGREIRO
Tchello d’Barros
Pouca gente se lembra do menino milagreiro. Os mais antigos ainda conservam alguma lembrança dele. Há quem afirme que ele nem existiu mas tem gente que jura até que foi curada por ele. O fato é que naquela longínqua e chuvosa tarde de inverno ele ficou na janela da casa contemplando o espetáculo dos relâmpagos e trovões que a mãe natureza exibia gratuitamente. Ele disse que não haveria enchentes dessa vez.
Ninguém lhe deixou ir brincar na chuva, mas depois da tempestade, aproveitou a calmaria para ir brincar descalço na rua e ver os efeitos do toró. Não constatou nenhum dano nas árvores e casas, mas o aguaceiro formou uma corrente de água junto ao meio-fio da calçada, onde ele divertia-se chutando as ondinhas e observando a beleza das imagens abstratas que as manchas de óleo dos carros deixavam na superfície úmida do asfalto. O óleo em contato com a água formava alguns arco-íris coloridos, em desenhos que lembravam, flores, animais, rostos, anjos e estrelas. Lembrou-se então que outra substância produzia um efeito parecido. Um tanto traquinas, pulou o muro do vizinho e apanhou algumas bergamotas. Depois de deliciar-se com os gomos acridoces, foi até o campinho onde jogava bola com os colegas. O lugar estava todo inundado formando diversas poças d’água.
O menino milagreiro escolheu então uma poça arredondada, de cerca de meio metro de diâmetro e depois de reparar as nuvens cor de gelo no espelho da água, pegou alguns pedaços de cascas das bergamotas e passou a espremê-los, sobre as nuvens que apareciam no espelho. A casca esguicha minúsculos jatos do ácido contido em seus poros e ao entrar em contato com a água produz efeitos coloridos, semelhantes às manchas do óleo, semelhantes ao arco-íris, semelhantes aos quadros de arte psicodélica. As nuvens abriram então uma pequena janela para que até o sol pudesse espiar esse curioso ato mágico do petiz.
Divertia-se com isso o garoto quando lembrou-se de Tistu, o personagem de “O Menino do Dedo Verde”, o primeiro livro que havia lido. Gostava de Tistu pois onde ele tocava com o polegar, ali nascia alguma plantinha. Teve então a idéia de tocar de leve a superfície da água com a pontinha do polegar. Nada aconteceu. Mas depois de um minuto notou que as manchas pareciam mexer-se sozinhas. Viu então que os desenhos coloridos pareciam elevar-se em forma de vapor e aos poucos formavam feixes coloridos de luz, que como por encanto iam subindo lentamente, acima dos fios dos postes, da torre da igreja, da linha do horizonte.
Relatam os jornais da época que naquela tarde as pessoas saíram às ruas para ver o mais brilhante arco-íris que já aparecera nos céus da cidade. Os que olhavam para cima, para o sol, viam-no circundado por um halo de coloridas nuances. Quem chegava de fora percebia a imensa redoma, que pairava no céu abençoando a cidade. Contam os mais antigos que muitos perseguiram o arco-íris até o final e dizem até que acharam muito ouro. Só não souberam dizer onde nascia aquele cromático feixe de luzes.
Quanto ao menino milagreiro, ninguém lembra exatamente o que aconteceu com ele depois. Mas na velha biblioteca consta sua assinatura naquela tarde, quando um pouco antes de fechar, ele apareceu para pegar mais um livro.
Tchello d’Barros
Pouca gente se lembra do menino milagreiro. Os mais antigos ainda conservam alguma lembrança dele. Há quem afirme que ele nem existiu mas tem gente que jura até que foi curada por ele. O fato é que naquela longínqua e chuvosa tarde de inverno ele ficou na janela da casa contemplando o espetáculo dos relâmpagos e trovões que a mãe natureza exibia gratuitamente. Ele disse que não haveria enchentes dessa vez.
Ninguém lhe deixou ir brincar na chuva, mas depois da tempestade, aproveitou a calmaria para ir brincar descalço na rua e ver os efeitos do toró. Não constatou nenhum dano nas árvores e casas, mas o aguaceiro formou uma corrente de água junto ao meio-fio da calçada, onde ele divertia-se chutando as ondinhas e observando a beleza das imagens abstratas que as manchas de óleo dos carros deixavam na superfície úmida do asfalto. O óleo em contato com a água formava alguns arco-íris coloridos, em desenhos que lembravam, flores, animais, rostos, anjos e estrelas. Lembrou-se então que outra substância produzia um efeito parecido. Um tanto traquinas, pulou o muro do vizinho e apanhou algumas bergamotas. Depois de deliciar-se com os gomos acridoces, foi até o campinho onde jogava bola com os colegas. O lugar estava todo inundado formando diversas poças d’água.
O menino milagreiro escolheu então uma poça arredondada, de cerca de meio metro de diâmetro e depois de reparar as nuvens cor de gelo no espelho da água, pegou alguns pedaços de cascas das bergamotas e passou a espremê-los, sobre as nuvens que apareciam no espelho. A casca esguicha minúsculos jatos do ácido contido em seus poros e ao entrar em contato com a água produz efeitos coloridos, semelhantes às manchas do óleo, semelhantes ao arco-íris, semelhantes aos quadros de arte psicodélica. As nuvens abriram então uma pequena janela para que até o sol pudesse espiar esse curioso ato mágico do petiz.
Divertia-se com isso o garoto quando lembrou-se de Tistu, o personagem de “O Menino do Dedo Verde”, o primeiro livro que havia lido. Gostava de Tistu pois onde ele tocava com o polegar, ali nascia alguma plantinha. Teve então a idéia de tocar de leve a superfície da água com a pontinha do polegar. Nada aconteceu. Mas depois de um minuto notou que as manchas pareciam mexer-se sozinhas. Viu então que os desenhos coloridos pareciam elevar-se em forma de vapor e aos poucos formavam feixes coloridos de luz, que como por encanto iam subindo lentamente, acima dos fios dos postes, da torre da igreja, da linha do horizonte.
Relatam os jornais da época que naquela tarde as pessoas saíram às ruas para ver o mais brilhante arco-íris que já aparecera nos céus da cidade. Os que olhavam para cima, para o sol, viam-no circundado por um halo de coloridas nuances. Quem chegava de fora percebia a imensa redoma, que pairava no céu abençoando a cidade. Contam os mais antigos que muitos perseguiram o arco-íris até o final e dizem até que acharam muito ouro. Só não souberam dizer onde nascia aquele cromático feixe de luzes.
Quanto ao menino milagreiro, ninguém lembra exatamente o que aconteceu com ele depois. Mas na velha biblioteca consta sua assinatura naquela tarde, quando um pouco antes de fechar, ele apareceu para pegar mais um livro.
002 - Conto "PÁGINAS INAUDITAS"
PÁGINAS INAUDITAS
Tchello d’Barros
Tudo aconteceu numa dessas tardes cálidas, que se arrastam sobre as linhas do horizonte e em cumplicidade com o relógio preguiçoso, demoram a encontrar o crepúsculo. As próprias nuvens, estáticas, parecem fazer parte de um quadro renascentista, como uma obra de Velasquez. Na biblioteca pública, pesquisava a origem dos Sonetos, e entre velhos e grossos volumes de dicionários, livros de poesia européia e outros de teoria literária, encontrava aqui e ali algumas pistas sobre os primórdios dessa forma fixa de poema que sobrevive às inovações vanguardistas e permanece como a mais conhecida entre literatos e apreciadores de um bom poema.
Os estudantes que freqüentavam a biblioteca naquela tarde pareciam interessados em livros sobre sonhos, astrologia e biografias de Raul Seixas, Che Guevara e Buda. Algumas senhoras perguntavam por novidades sobre auto-ajuda, inteligência emocional e neuro-lingüística. Um escritor da cidade perguntou pelas obras completas de Jorge Luís Borges, parece que saiu decepcionado. Além desses diálogos entrecortados, era possível ouvir ainda alguns cochichos entre os alunos, uma ou outra textura sonora de livros sendo folheados, a máquina de fotocópia reproduzindo as idéias dos homens e mais alguns sonidos de enciclopédias sendo desencaixotadas. E assim a tarde urdia o tempo languidamente, macilenta e despreocupada.
Por entre as estantes, procurando agora um volume das obras de Petrarca, tive a impressão de ouvir um cochicho bem baixinho, quase inaudível. Olhei ao redor, por entre os livros e nada, não havia ninguém por ali. De repente, pude ouvir outra vez umas vozes, que pareciam vir de algum lugar próximo, como se viessem de dentro dos livros. Apurando a audição, percebi que o diálogo abafado vinha de dentro de nada menos que um exemplar do “Don Quixote.” E o mais incrível, era alguém lendo, ou recitando, o célebre ‘discurso das armas e das letras’ que o personagem de Cervantes tão bem deixou gravado para as futuras gerações. Primeiro imaginei algum fantasminha letrado dentro do livro, talvez algum membro da sociedade dos poetas mortos. Então lembrei que sequer acredito em fantasmas. Depois pensei que fosse alguma pegadinha, já que vivemos numa era com câmeras escondidas por toda parte. Finalmente, vencido pela curiosidade, peguei muito discretamente o livro, olhando de soslaio pra ver se ninguém estava me chamando de louco.
Desconfiado, abri as primeiras páginas, só vi uma breve biografia do bardo espanhol, folheei outras e aí estava uma gravura de Doré mostrando um Sancho muito bonachão. Somente na segunda parte é que finalmente desvendei o mistério: Tudo não passava de duas pequenas traças conversando, pois tinham chegado a mesma página por caminhos diferentes. E estavam ali as duas discutindo as desventuras quixotescas quando resolvi ouvir um pouco mais o diálogo. A mais gordinha delas argumentava que gostava dos livros clássicos, primeiro porque pouca gente emprestava e depois porque o papel era de excelente qualidade, macio, e a tinta tinha um pigmento que temperava tudo com um sabor especial. Já a outra tracinha assinalava sua preferência por jornais, especialmente colunas sociais, pois estas tinham mais figurinhas. A mais fofinha delas não deixou por menos, ensinando que nos clássicos o papel era mais bonito pois tinha uma tonalidade amarelada. A outra considerou que isso não era vantagem pois nas fotos das colunas, sorrisos amarelos era o que não faltava. Eu já ia quase entrando na conversa quando decidi deixar por isso mesmo, apesar de ser uma cena tão rara. Ainda deu tempo de ouvir uma traça fazer troça dizendo que cena rara mesmo seria ver aqueles colunáveis lendo clássicos como esse.
Tchello d’Barros
Tudo aconteceu numa dessas tardes cálidas, que se arrastam sobre as linhas do horizonte e em cumplicidade com o relógio preguiçoso, demoram a encontrar o crepúsculo. As próprias nuvens, estáticas, parecem fazer parte de um quadro renascentista, como uma obra de Velasquez. Na biblioteca pública, pesquisava a origem dos Sonetos, e entre velhos e grossos volumes de dicionários, livros de poesia européia e outros de teoria literária, encontrava aqui e ali algumas pistas sobre os primórdios dessa forma fixa de poema que sobrevive às inovações vanguardistas e permanece como a mais conhecida entre literatos e apreciadores de um bom poema.
Os estudantes que freqüentavam a biblioteca naquela tarde pareciam interessados em livros sobre sonhos, astrologia e biografias de Raul Seixas, Che Guevara e Buda. Algumas senhoras perguntavam por novidades sobre auto-ajuda, inteligência emocional e neuro-lingüística. Um escritor da cidade perguntou pelas obras completas de Jorge Luís Borges, parece que saiu decepcionado. Além desses diálogos entrecortados, era possível ouvir ainda alguns cochichos entre os alunos, uma ou outra textura sonora de livros sendo folheados, a máquina de fotocópia reproduzindo as idéias dos homens e mais alguns sonidos de enciclopédias sendo desencaixotadas. E assim a tarde urdia o tempo languidamente, macilenta e despreocupada.
Por entre as estantes, procurando agora um volume das obras de Petrarca, tive a impressão de ouvir um cochicho bem baixinho, quase inaudível. Olhei ao redor, por entre os livros e nada, não havia ninguém por ali. De repente, pude ouvir outra vez umas vozes, que pareciam vir de algum lugar próximo, como se viessem de dentro dos livros. Apurando a audição, percebi que o diálogo abafado vinha de dentro de nada menos que um exemplar do “Don Quixote.” E o mais incrível, era alguém lendo, ou recitando, o célebre ‘discurso das armas e das letras’ que o personagem de Cervantes tão bem deixou gravado para as futuras gerações. Primeiro imaginei algum fantasminha letrado dentro do livro, talvez algum membro da sociedade dos poetas mortos. Então lembrei que sequer acredito em fantasmas. Depois pensei que fosse alguma pegadinha, já que vivemos numa era com câmeras escondidas por toda parte. Finalmente, vencido pela curiosidade, peguei muito discretamente o livro, olhando de soslaio pra ver se ninguém estava me chamando de louco.
Desconfiado, abri as primeiras páginas, só vi uma breve biografia do bardo espanhol, folheei outras e aí estava uma gravura de Doré mostrando um Sancho muito bonachão. Somente na segunda parte é que finalmente desvendei o mistério: Tudo não passava de duas pequenas traças conversando, pois tinham chegado a mesma página por caminhos diferentes. E estavam ali as duas discutindo as desventuras quixotescas quando resolvi ouvir um pouco mais o diálogo. A mais gordinha delas argumentava que gostava dos livros clássicos, primeiro porque pouca gente emprestava e depois porque o papel era de excelente qualidade, macio, e a tinta tinha um pigmento que temperava tudo com um sabor especial. Já a outra tracinha assinalava sua preferência por jornais, especialmente colunas sociais, pois estas tinham mais figurinhas. A mais fofinha delas não deixou por menos, ensinando que nos clássicos o papel era mais bonito pois tinha uma tonalidade amarelada. A outra considerou que isso não era vantagem pois nas fotos das colunas, sorrisos amarelos era o que não faltava. Eu já ia quase entrando na conversa quando decidi deixar por isso mesmo, apesar de ser uma cena tão rara. Ainda deu tempo de ouvir uma traça fazer troça dizendo que cena rara mesmo seria ver aqueles colunáveis lendo clássicos como esse.
001 - Conto "O CUPIDO, O CULPADO"
O CUPIDO O CULPADO
Tchello d’Barros
Não é que ele fosse solitário ou anti-social, tampouco era tímido ou egocêntrico. A verdade é que gostava de ficar só, em estado de solitude, como recomendava o poeta Rainer Maria Rilke. Até seu esporte preferido era individualista, pois sempre que podia lá estava ele praticando arco-e-flecha. Quando menino, brincava com a garotada, quando todos, para fazerem parte da turma deveriam ter seu próprio arco, aljava e flechas. O alvo era um coqueiro no fim da rua e servia para todos treinarem a pontaria. Depois alguém dava o grito do Tarzan e os outros todos ululavam como índios e iam andar de cipó nas árvores do bosque ou nadar no riozinho. Bons tempos!
Adolescente, ganhou um arco talhado em madeira, feito por um descendente de índios do norte. Assustou-se quando atirou a primeira flecha e viu-a desaparecer por cima das árvores do bosque. Certa vez, estava viajando, visitando um castelo, e ao lado de um dos muros imensos viu alguém praticando o esporte, atirando sucessivas setas num alvo à cerca de cinqüenta metros. Decidiu pesquisar e depois de muito estudar, adquiriu os equipamentos necessários. Com muito treino, muitos erros e acertos depois, desenvolveu a pontaria e a concentração a tal ponto que acabou por tornar-se imbatível naquela arte.
O Cupido, que há milênios usa o mesmo instrumento para acertar o coraçãozinho dos candidatos a Romeu e Julieta, escolheu-o para alvo de mais uma de suas setas. Achou que aquela solitude toda deveria ser substituída, não por uma dessas meras paixões inflamadas ou algum romance ocasional, mas por uma história de amor de verdade, daquelas que muitos chamam de almas gêmeas, com direito a final feliz.
Esse anjinho sapeca, escolheu na aljava uma das melhores flechas, que guardava há tempos, para uma ocasião especial. Era toda de luz dourada, até parecia neon. Então ele vergou seu arco, esperou um momento de distração de nosso arqueiro, mirou bem no centro do peito e disparou! Só não contava com uma coisa: nosso herói, que conhecia flechas como ninguém, ao sentir que uma dessas vinha em sua direção, rápido como um ninja, conseguiu interceptá-la, agarrando-a com a mão. Então apontou seu arco para o cupido, que quando viu, fugiu em disparada e até hoje não se sabe aonde foi parar, tamanha a falta de amor verdadeiro nesse mundo. Restava agora descobrir o que fazer com aquela flechinha brilhante.
Depois que a notícia se espalhou, muita gente acorreu ao arqueiro para emprestar, roubar ou mesmo comprar a tal flecha milagrosa do amor. Queriam cravá-la no próprio peito, sem demora, para viver, nem que fosse uma vez só na vida, o maior dos sentimentos, a mais sublime das experiências. Houve quem lhe oferecesse ouro, mulheres, boiadas, camelos, e até mesmo metade de um reino. Uns marqueteiros propuseram dividi-la em pedacinhos minúsculos e vendê-los como pílulas do amor, ou diluí-la e vender como elixir da paixão. Houve choradeiras, histerias e súplicas, até quem apenas se contentaria em tocar de leve, tamanha sua fé. Então ele sentiu-se muito comovido, com a miséria do amor implorado.
Ninguém sabe exatamente o que aconteceu com a flecha. Uns dizem que foi feito um grande leilão e foi arrematada por uma socialite burguesa, dessas que casam por interesse. Outros contam que, compadecido, ele doou para uma virgem, que dizia não acreditar em amor. A versão mais aceita é que o Cupido procurou-o mais tarde e fizeram um trato: ele devolveria a flecha, com a promessa de não ser alvo nunca mais da mira do anjinho. Negócio feito!
O tempo passou e num certo fim de tarde, depois de mais um treino com o arco, ele relembrava tudo ao caminhar pelas ruas da cidade. Estava nesses devaneios, quando ao dobrar uma esquina, deu de cara com um certo par de cílios compridos, que traziam junto de si duas gotas do Atlântico. Foi mais rápido que uma seta, que um piscar de olhos, esse amor-à-primeira-vista. As buzinas da hora do rush abafaram o riso de um certo pivete com asas, sentado sobre o semáforo daquela esquina.
Tchello d’Barros
Não é que ele fosse solitário ou anti-social, tampouco era tímido ou egocêntrico. A verdade é que gostava de ficar só, em estado de solitude, como recomendava o poeta Rainer Maria Rilke. Até seu esporte preferido era individualista, pois sempre que podia lá estava ele praticando arco-e-flecha. Quando menino, brincava com a garotada, quando todos, para fazerem parte da turma deveriam ter seu próprio arco, aljava e flechas. O alvo era um coqueiro no fim da rua e servia para todos treinarem a pontaria. Depois alguém dava o grito do Tarzan e os outros todos ululavam como índios e iam andar de cipó nas árvores do bosque ou nadar no riozinho. Bons tempos!
Adolescente, ganhou um arco talhado em madeira, feito por um descendente de índios do norte. Assustou-se quando atirou a primeira flecha e viu-a desaparecer por cima das árvores do bosque. Certa vez, estava viajando, visitando um castelo, e ao lado de um dos muros imensos viu alguém praticando o esporte, atirando sucessivas setas num alvo à cerca de cinqüenta metros. Decidiu pesquisar e depois de muito estudar, adquiriu os equipamentos necessários. Com muito treino, muitos erros e acertos depois, desenvolveu a pontaria e a concentração a tal ponto que acabou por tornar-se imbatível naquela arte.
O Cupido, que há milênios usa o mesmo instrumento para acertar o coraçãozinho dos candidatos a Romeu e Julieta, escolheu-o para alvo de mais uma de suas setas. Achou que aquela solitude toda deveria ser substituída, não por uma dessas meras paixões inflamadas ou algum romance ocasional, mas por uma história de amor de verdade, daquelas que muitos chamam de almas gêmeas, com direito a final feliz.
Esse anjinho sapeca, escolheu na aljava uma das melhores flechas, que guardava há tempos, para uma ocasião especial. Era toda de luz dourada, até parecia neon. Então ele vergou seu arco, esperou um momento de distração de nosso arqueiro, mirou bem no centro do peito e disparou! Só não contava com uma coisa: nosso herói, que conhecia flechas como ninguém, ao sentir que uma dessas vinha em sua direção, rápido como um ninja, conseguiu interceptá-la, agarrando-a com a mão. Então apontou seu arco para o cupido, que quando viu, fugiu em disparada e até hoje não se sabe aonde foi parar, tamanha a falta de amor verdadeiro nesse mundo. Restava agora descobrir o que fazer com aquela flechinha brilhante.
Depois que a notícia se espalhou, muita gente acorreu ao arqueiro para emprestar, roubar ou mesmo comprar a tal flecha milagrosa do amor. Queriam cravá-la no próprio peito, sem demora, para viver, nem que fosse uma vez só na vida, o maior dos sentimentos, a mais sublime das experiências. Houve quem lhe oferecesse ouro, mulheres, boiadas, camelos, e até mesmo metade de um reino. Uns marqueteiros propuseram dividi-la em pedacinhos minúsculos e vendê-los como pílulas do amor, ou diluí-la e vender como elixir da paixão. Houve choradeiras, histerias e súplicas, até quem apenas se contentaria em tocar de leve, tamanha sua fé. Então ele sentiu-se muito comovido, com a miséria do amor implorado.
Ninguém sabe exatamente o que aconteceu com a flecha. Uns dizem que foi feito um grande leilão e foi arrematada por uma socialite burguesa, dessas que casam por interesse. Outros contam que, compadecido, ele doou para uma virgem, que dizia não acreditar em amor. A versão mais aceita é que o Cupido procurou-o mais tarde e fizeram um trato: ele devolveria a flecha, com a promessa de não ser alvo nunca mais da mira do anjinho. Negócio feito!
O tempo passou e num certo fim de tarde, depois de mais um treino com o arco, ele relembrava tudo ao caminhar pelas ruas da cidade. Estava nesses devaneios, quando ao dobrar uma esquina, deu de cara com um certo par de cílios compridos, que traziam junto de si duas gotas do Atlântico. Foi mais rápido que uma seta, que um piscar de olhos, esse amor-à-primeira-vista. As buzinas da hora do rush abafaram o riso de um certo pivete com asas, sentado sobre o semáforo daquela esquina.
013 - Crônica "130 CABEÇAS DE CRISTO EM 13 TÍLIAS"
130 CABEÇAS DE CRISTO EM 13 TÍLIAS
Tchello d’Barros
Certas cidades são como certas mulheres, belas, encantadoras, mas sabem permanecer discretas, longe da fama, dos holofotes. Nesse nosso país continental, me pergunto se alguém no Piauí já ouviu falar da pequena notável Treze Tílias, escondida no oeste de Santa Catarina, essa unidade da federação conhecida como Mosaico Étnico, cujas cidades foram povoadas por imigrantes de tantos países. Mas não faz mal, a maioria dos catarinenses também ainda não conhece esse pedacinho da Áustria no Sul do Brasil.
Pois ao se chegar na bucólica Treze Tílias, que recebe seu nome em função das Tílias, árvores cujas sementes os colonizadores austríacos trouxeram dos vales europeus, logo se tem a impressão de estar de fato num vale europeu, tamanho o impacto da arquitetura típica num viajante mais desavisado. Para quem não sabia que existe essa comunidade austríaca no Brasil, esse impacto se amplia ao se percorrer as ruas e ir aos poucos se familiarizando com uma cidade que parece de brinquedo, de tão bem cuidada, com jardins prodigiosos, floreiras nas janelas, e a simpática receptividade desse povo loiro e de olhos azuis.
É claro que não se entende uma palavra do que eles falam entre si, pois cultivam o idioma de origem, mas quando se está num de seus restaurantes típicos, eles explicam com a maior paciência, num português de sotaque muito carregado, de quê são compostos os pratos que aparecem nos cardápios com nomes praticamente impronunciáveis para nós tropicais tupiniquins. Menciono isso pois considero o quesito culinária/gastronomia parte importante do processo de se conhecer uma nova cultura, ainda mais em restaurantes onde se ouve as valsas de Strauss com a mesma naturalidade que se ouve Zezé di Camargo e Luciano em Goiânia ou Calypso em Belém do Pará.
Após um demorado, indolente e relaxante banho nas águas termais, é hora de vestir roupa quente, com luvas, gorro de lã e cachecol, para caminhar pelas ruas e ficar boquiaberto com as fachadas arquitetônicas no estilo Enxaimel. Claro que não poderia deixar de visitar os inúmeros ateliês de artesanato em madeira, que tanto caracterizam a cidade. Já existe um pequeno fluxo de turistas que visita a pequena e escondida cidade dos artesãos que expressam nos entalhes detalhados, diversas figuras. A mais tocante sem dúvida é a reprodução das Edelweis, florezinhas brancas, que evocam o sentimento de saudades dos Alpes, que trazem uma nostalgia comovente à estes colonizadores, inclusive nas novas gerações, já nascidas no Brasil. Não se acha ali nenhum museu de arte moderna, contemporânea ou de vanguarda, que seja, mas pode-se encontrar mestres entalhadores, que trabalham grandes formatos, como um Don Quixote em tamanho natural, e encontram-se até mesmo gente que foi pra Europa estudar design para adaptar essa tradição para a produção de mobiliário com estilos inovadores.
Mas a peça preferida, ou mais produzida, são as cabeças de Cristo, cinzeladas diretamente no nó do Pinheiro, aquela árvore também conhecida como Araucária. Isso porque o nó, onde o galho do pinheiro sai do tronco, tem mais ou menos o tamanho de uma cabeça, então bastam uns entalhes aqui e ali e pronto, está feita mais uma cabeça, pra alegria dos turistas, que por uns trocados levam as tais cabeças pra suas casas. Haja cabeças! O problema é que os artesãos põem a própria cabeça numa espécie de imaginária linha de montagem, pois o entalhador faz todas elas parecidas, diria até mesmo iguais, não fosse a textura da madeira, que diferencia uma de outra. E mais grave, praticamente não se diferencia o trabalho de um artesão para outro. Sim, e elas ficavam em exposição nos ateliês, cada ateliê tem aí uma meia dúzia, dez, uma dúzia de cabeças. Quando passou de cem, parei de contar, não quis por em dúvida minha fé.
Colei num grupelho de turistas que foi visitando um por um esses ateliês e ao final da tarde a monotonia das cabeças já estava tornando o passeio um tanto enfadonho. Meu estômago já avisava que estava perto da hora de retornar para o hotel para um lauto café colonial, com todas aquelas iguarias. Mas, eis que estava aí ouvindo a explicação de uma senhora que, enquanto entalhava, contava que aprendeu o ofício de seu pai e este do pai dele, de forma que ela já está também ensinando ao filho, relato que sensiblizou os turistas. Nessa altura fui bisbilhotar um velho armário, com algumas peças entalhadas bem envelhecidas, que já estavam ali há muito tempo. Eram uns brinquedos de madeira, mas entre eles uma peça diferente de todas. Diferente de tudo. Tratava-se de um macaco sentado sobre uma pilha de livros, olhando fixamente para uma caveira humana, em sua mão direita. A mão esquerda no queixo. Esse macaco pensativo imediatamente me evocou a figura do Pensador, de Rodin, mas também Hamlet, em sua antológica cena com a caveira.
Arte pode ser a visão de mundo de um artista, filtrada por um tema escolhido, expresso mediante uma técnica específica com a função de causar uma reação no outro, preferencialmente uma emoção estética. Acho que aquela senhora não pensava em nada disso quando esculpiu essa curiosa figura de uns quinze centímetros de altura, pois quando interrompi a explicação dela aos turistas, para saber sobre a inquietante peça, ela comentou que ela à teria esculpido há muitos anos, mocinha, quando vinha ao ateliê de seu pai para aprender o ofício. Naquele dia ela tinha aprendido na escola que os humanos descendem dos macacos. Então nos contou que ficou perplexa com isso e ninguém soube lhe explicar porque uns evoluiram e outros não, pois permaneceram no estágio de mero macaco. Era mais ou menos isso que aquele chimpanzé estava se perguntando ao olhar tão inquisitivamente para a caveira humana em sua mão.
Não quis me vender a peça por preço nenhum. Primeiro porque o "bonequinho" é hoje um brinquedinho de seu filho e também porque só lhe interessava ficar conhecida com os entalhes das tais cabeças. E continuou a fincar o cinzel em mais uma delas. Antes de sair dali, julguei ter notado uma das cabeças penduradas ter rapidamente piscado para mim. Mas hoje acho que foi apenas o reflexo do sol daquele fim de tarde, na idílica Treze Tílias
Tchello d’Barros
Certas cidades são como certas mulheres, belas, encantadoras, mas sabem permanecer discretas, longe da fama, dos holofotes. Nesse nosso país continental, me pergunto se alguém no Piauí já ouviu falar da pequena notável Treze Tílias, escondida no oeste de Santa Catarina, essa unidade da federação conhecida como Mosaico Étnico, cujas cidades foram povoadas por imigrantes de tantos países. Mas não faz mal, a maioria dos catarinenses também ainda não conhece esse pedacinho da Áustria no Sul do Brasil.
Pois ao se chegar na bucólica Treze Tílias, que recebe seu nome em função das Tílias, árvores cujas sementes os colonizadores austríacos trouxeram dos vales europeus, logo se tem a impressão de estar de fato num vale europeu, tamanho o impacto da arquitetura típica num viajante mais desavisado. Para quem não sabia que existe essa comunidade austríaca no Brasil, esse impacto se amplia ao se percorrer as ruas e ir aos poucos se familiarizando com uma cidade que parece de brinquedo, de tão bem cuidada, com jardins prodigiosos, floreiras nas janelas, e a simpática receptividade desse povo loiro e de olhos azuis.
É claro que não se entende uma palavra do que eles falam entre si, pois cultivam o idioma de origem, mas quando se está num de seus restaurantes típicos, eles explicam com a maior paciência, num português de sotaque muito carregado, de quê são compostos os pratos que aparecem nos cardápios com nomes praticamente impronunciáveis para nós tropicais tupiniquins. Menciono isso pois considero o quesito culinária/gastronomia parte importante do processo de se conhecer uma nova cultura, ainda mais em restaurantes onde se ouve as valsas de Strauss com a mesma naturalidade que se ouve Zezé di Camargo e Luciano em Goiânia ou Calypso em Belém do Pará.
Após um demorado, indolente e relaxante banho nas águas termais, é hora de vestir roupa quente, com luvas, gorro de lã e cachecol, para caminhar pelas ruas e ficar boquiaberto com as fachadas arquitetônicas no estilo Enxaimel. Claro que não poderia deixar de visitar os inúmeros ateliês de artesanato em madeira, que tanto caracterizam a cidade. Já existe um pequeno fluxo de turistas que visita a pequena e escondida cidade dos artesãos que expressam nos entalhes detalhados, diversas figuras. A mais tocante sem dúvida é a reprodução das Edelweis, florezinhas brancas, que evocam o sentimento de saudades dos Alpes, que trazem uma nostalgia comovente à estes colonizadores, inclusive nas novas gerações, já nascidas no Brasil. Não se acha ali nenhum museu de arte moderna, contemporânea ou de vanguarda, que seja, mas pode-se encontrar mestres entalhadores, que trabalham grandes formatos, como um Don Quixote em tamanho natural, e encontram-se até mesmo gente que foi pra Europa estudar design para adaptar essa tradição para a produção de mobiliário com estilos inovadores.
Mas a peça preferida, ou mais produzida, são as cabeças de Cristo, cinzeladas diretamente no nó do Pinheiro, aquela árvore também conhecida como Araucária. Isso porque o nó, onde o galho do pinheiro sai do tronco, tem mais ou menos o tamanho de uma cabeça, então bastam uns entalhes aqui e ali e pronto, está feita mais uma cabeça, pra alegria dos turistas, que por uns trocados levam as tais cabeças pra suas casas. Haja cabeças! O problema é que os artesãos põem a própria cabeça numa espécie de imaginária linha de montagem, pois o entalhador faz todas elas parecidas, diria até mesmo iguais, não fosse a textura da madeira, que diferencia uma de outra. E mais grave, praticamente não se diferencia o trabalho de um artesão para outro. Sim, e elas ficavam em exposição nos ateliês, cada ateliê tem aí uma meia dúzia, dez, uma dúzia de cabeças. Quando passou de cem, parei de contar, não quis por em dúvida minha fé.
Colei num grupelho de turistas que foi visitando um por um esses ateliês e ao final da tarde a monotonia das cabeças já estava tornando o passeio um tanto enfadonho. Meu estômago já avisava que estava perto da hora de retornar para o hotel para um lauto café colonial, com todas aquelas iguarias. Mas, eis que estava aí ouvindo a explicação de uma senhora que, enquanto entalhava, contava que aprendeu o ofício de seu pai e este do pai dele, de forma que ela já está também ensinando ao filho, relato que sensiblizou os turistas. Nessa altura fui bisbilhotar um velho armário, com algumas peças entalhadas bem envelhecidas, que já estavam ali há muito tempo. Eram uns brinquedos de madeira, mas entre eles uma peça diferente de todas. Diferente de tudo. Tratava-se de um macaco sentado sobre uma pilha de livros, olhando fixamente para uma caveira humana, em sua mão direita. A mão esquerda no queixo. Esse macaco pensativo imediatamente me evocou a figura do Pensador, de Rodin, mas também Hamlet, em sua antológica cena com a caveira.
Arte pode ser a visão de mundo de um artista, filtrada por um tema escolhido, expresso mediante uma técnica específica com a função de causar uma reação no outro, preferencialmente uma emoção estética. Acho que aquela senhora não pensava em nada disso quando esculpiu essa curiosa figura de uns quinze centímetros de altura, pois quando interrompi a explicação dela aos turistas, para saber sobre a inquietante peça, ela comentou que ela à teria esculpido há muitos anos, mocinha, quando vinha ao ateliê de seu pai para aprender o ofício. Naquele dia ela tinha aprendido na escola que os humanos descendem dos macacos. Então nos contou que ficou perplexa com isso e ninguém soube lhe explicar porque uns evoluiram e outros não, pois permaneceram no estágio de mero macaco. Era mais ou menos isso que aquele chimpanzé estava se perguntando ao olhar tão inquisitivamente para a caveira humana em sua mão.
Não quis me vender a peça por preço nenhum. Primeiro porque o "bonequinho" é hoje um brinquedinho de seu filho e também porque só lhe interessava ficar conhecida com os entalhes das tais cabeças. E continuou a fincar o cinzel em mais uma delas. Antes de sair dali, julguei ter notado uma das cabeças penduradas ter rapidamente piscado para mim. Mas hoje acho que foi apenas o reflexo do sol daquele fim de tarde, na idílica Treze Tílias
012 - Crônica "A LIÇÃO DAS ONZE-HORAS"
A LIÇÃO DAS ONZE-HORAS
Tchello d’Barros
Assim como acontece em nossa vida, o outono aos poucos vai ao encontro do inevitável inverno, e no lugar de flores coloridas, vemos pelos jardins as folhas das árvores que já cumpriram sua missão principal. Digo isso pois quando visitava o escritor Jairo Martins nas luminosas manhãs do início do outono, sempre me deparava com um espetáculo tão inebriante quanto sutil. Ocorre que o jardim da casa é a morada de centenas daquela flor popularmente chamada de Onze-horas. A flor é pequena, singela mesmo, mas ainda assim, como algumas pessoas, sabe ser sublime.
Se chegasse muito cedo à casa do poeta, valia pelo café forte e fumegante, mas as flores ainda não estavam abertas, e o poeta ainda estava meio sonolento. Se chegasse aí pelas nove horas, já se podia ver as pétalas se abrindo e recebendo as bençãos dos raios de sol que se derramavam em diagonal pelo ajardinado pátio, refletindo-se em miríades de gotículas do cristal do sereno. Como algumas se abriam precocemente, antes do horário que faz jus ao seu nome, eu dizia que essas florinhas eram cheias de nove-horas! Quando eram de fato onze horas no relógio da torre da catedral, lá estava estendido no jardim aquele tapete de cor rosa intenso, uma tonalidade que alguns chamam de fúcsia, outros de magenta, e uns ainda preferem nominar de pink. Não sei o quanto isso importa no momento. O que vale é registrar a beleza daquele momento, daquele horário, daquela cena, daquele quadro.
Isso é apenas uma outra forma de dizer que se eu chegasse ao meio dia, já teria perdido o silencioso espetáculo, pois essas danadinhas têm um pacto com o relógio que diz que elas devem se recolher depois de algum tempo, descansar a beleza de suas pétalas, para somente no outro dia abrirem-se novamente para espiar o que acontece no cotidiano dos humanos apressados. E quem quiser vê-las assim desabrochadas, generosas, apaixonadas, é bom que esteja na hora e no lugar certos.
Pois bem, como já estamos no quarto parágrafo, já posso contar que essa crônica na verdade não trata de flores, mas de correspondências, de relações e convergências. Talvez fale é de gente mesmo. É que desde sempre tive esse estranho hábito de relacionar tudo com pessoas, ou com nossas atitudes, com nossa personalidade ou nosso comportamento. O vento por exemplo: algumas pessoas me lembram uma brisa suave, daquelas que acariciam o cabelo, a face e até trazem uma antiga cantiga aos ouvidos dos mais românticos. Outras pessoas me lembram um vendaval, tempestuosas como um ciclone, que vira tudo do lado avesso, inclusive o nosso coração. Buscando-se a devida relação entre as coisas e as pessoas, em realidade dá para comparar tudo com todos e sempre aprender algo disso.
Estava nesses devaneios meditativos, entre um café e outro com o colega escritor, que absorto revisava um texto, quando tentei saber porque o êxtase diante de uma flor tão singela como as fugazes Onze Horas. E creio que a relação talvez não esteja na imagem, na forma ou no tamanho. Talvez na atitude. É possível que em nossa vida, haja um momento certo para tudo. Um instante onde deve acontecer aquilo que deve acontecer e pronto, seguindo-se o fluxo natural das coisas e a ordem do mundo e da vida. Se apressarmos, chegamos cedo demais e perdemos o espetáculo. Se protelamos e adiamos, tudo foi tarde demais. Outono e inverno vão embora! Já estou com saudade das Onze-horas!
Tchello d’Barros
Assim como acontece em nossa vida, o outono aos poucos vai ao encontro do inevitável inverno, e no lugar de flores coloridas, vemos pelos jardins as folhas das árvores que já cumpriram sua missão principal. Digo isso pois quando visitava o escritor Jairo Martins nas luminosas manhãs do início do outono, sempre me deparava com um espetáculo tão inebriante quanto sutil. Ocorre que o jardim da casa é a morada de centenas daquela flor popularmente chamada de Onze-horas. A flor é pequena, singela mesmo, mas ainda assim, como algumas pessoas, sabe ser sublime.
Se chegasse muito cedo à casa do poeta, valia pelo café forte e fumegante, mas as flores ainda não estavam abertas, e o poeta ainda estava meio sonolento. Se chegasse aí pelas nove horas, já se podia ver as pétalas se abrindo e recebendo as bençãos dos raios de sol que se derramavam em diagonal pelo ajardinado pátio, refletindo-se em miríades de gotículas do cristal do sereno. Como algumas se abriam precocemente, antes do horário que faz jus ao seu nome, eu dizia que essas florinhas eram cheias de nove-horas! Quando eram de fato onze horas no relógio da torre da catedral, lá estava estendido no jardim aquele tapete de cor rosa intenso, uma tonalidade que alguns chamam de fúcsia, outros de magenta, e uns ainda preferem nominar de pink. Não sei o quanto isso importa no momento. O que vale é registrar a beleza daquele momento, daquele horário, daquela cena, daquele quadro.
Isso é apenas uma outra forma de dizer que se eu chegasse ao meio dia, já teria perdido o silencioso espetáculo, pois essas danadinhas têm um pacto com o relógio que diz que elas devem se recolher depois de algum tempo, descansar a beleza de suas pétalas, para somente no outro dia abrirem-se novamente para espiar o que acontece no cotidiano dos humanos apressados. E quem quiser vê-las assim desabrochadas, generosas, apaixonadas, é bom que esteja na hora e no lugar certos.
Pois bem, como já estamos no quarto parágrafo, já posso contar que essa crônica na verdade não trata de flores, mas de correspondências, de relações e convergências. Talvez fale é de gente mesmo. É que desde sempre tive esse estranho hábito de relacionar tudo com pessoas, ou com nossas atitudes, com nossa personalidade ou nosso comportamento. O vento por exemplo: algumas pessoas me lembram uma brisa suave, daquelas que acariciam o cabelo, a face e até trazem uma antiga cantiga aos ouvidos dos mais românticos. Outras pessoas me lembram um vendaval, tempestuosas como um ciclone, que vira tudo do lado avesso, inclusive o nosso coração. Buscando-se a devida relação entre as coisas e as pessoas, em realidade dá para comparar tudo com todos e sempre aprender algo disso.
Estava nesses devaneios meditativos, entre um café e outro com o colega escritor, que absorto revisava um texto, quando tentei saber porque o êxtase diante de uma flor tão singela como as fugazes Onze Horas. E creio que a relação talvez não esteja na imagem, na forma ou no tamanho. Talvez na atitude. É possível que em nossa vida, haja um momento certo para tudo. Um instante onde deve acontecer aquilo que deve acontecer e pronto, seguindo-se o fluxo natural das coisas e a ordem do mundo e da vida. Se apressarmos, chegamos cedo demais e perdemos o espetáculo. Se protelamos e adiamos, tudo foi tarde demais. Outono e inverno vão embora! Já estou com saudade das Onze-horas!
Assinar:
Postagens (Atom)




